REMNANT Revista

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Pequenas coisas

Edição originalThe Heartbeat of the Remnant · Inverno 2021 · Volume 25 · Número 4

Você já tentou mudar o mundo? Eu já. Na adolescência, sonhava com as façanhas ousadas que faria por Deus. Enquanto arrumava a mesa na casa dos meus pais, esperava pelo dia em que poderia realizar coisas maiores — coisas como estabelecer-me na África, falar línguas estranhas e conduzir pessoas a Jesus. A ideia de viver numa cabana de barro e desviar-me de cobras venenosas parecia emocionante.

E então, parte dos meus sonhos se tornou realidade! Deixei para trás tudo o que conhecia e cheguei a um país africano tomada pela adrenalina. Tentei mudar o pequeno mundo em que estava — aquele vilarejo esquecido por Deus, cheio de embriaguez, casamentos desfeitos, brigas e crianças negligenciadas. Todos os dias sentia a angústia de estar tão ocupada com tarefas terrenas “insignificantes” e me perguntava como poderia fazer a diferença. Então, de repente, nosso trabalho foi interrompido abruptamente pelo esgotamento e por uma série de suspeitas do governo. Nada disso fazia parte dos meus sonhos.

Ainda faço a mesma pergunta: “Deus, como posso fazer a diferença?” A vizinha bate à porta. A mulher que lava a roupa precisa receber. O almoço precisa estar na mesa em 15 minutos. Nosso filho do quinto ano precisa de ajuda para multiplicar frações. O céu se enche de nuvens escuras, e o varal está cheio de roupa. Limpo o nariz do bebê pela enésima vez enquanto ela se senta em cima da mesa, espalhando os livros e papéis do irmão. Faço pão, preparo iogurte, bato manteiga e cozinho 21 refeições por semana. Dobro montanhas de roupa, e na semana seguinte faço tudo de novo. Varro o chão, que acumulou uma quantidade espantosa de sujeira em apenas duas horas. Em muitos aspectos, a vida é mais rotineira do que jamais foi.

Eu não tinha capacidade para mudar o mundo quando era uma adolescente sonhadora, e tampouco tenho essa capacidade agora. Deus não me pede isso. Ele só me pede que caminhe com Ele e obedeça à sua voz. Aos poucos, estou aprendendo que o espiritual e o físico são inseparáveis — até Jesus ensinava o evangelho do Reino enquanto descansava, dormia e comia. Esfregar o chão e cortar pão podem ser atos de adoração ao meu Criador, se eu assim os considerar. Foi Ele quem planejou que minha caminhada espiritual e sua propagação acontecessem quando minhas mãos tocam o que é terreno. É assim que meu espírito é aperfeiçoado. É a única maneira de eu expressar minha fé como uma fé viva. É a única maneira de tocar o coração dos meus filhos e viver diante deles um evangelho prático que possam imitar. É assim que minha fé se mostra real aos que não creem, quando me veem enfrentar as mesmas coisas que eles enfrentam e observam minhas reações a elas.

Aos poucos, estou aprendendo que servir a Deus não tem a ver com determinação nem com mudar o mundo. Tem a ver com permitir que o Espírito de Deus habite em mim, me guie e fale comigo. Estou aprendendo que Deus se interessa mais pela pessoa que estou me tornando do que por tudo o que quero fazer por Ele. Talvez, afinal, eu seja apenas um pavio fumegante, em vez de alguém que mudará o mundo. Acho que Paulo poderia compreender esse sentimento quando escreveu: Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se glorie na presença dele –1 Coríntios 1:27-29.

Elisabeth Elliot disse: “Às vezes, a luz surge com uma lentidão excruciante. O Reino de Deus é como o fermento e a semente, coisas que agem em silêncio, secretamente, devagar, mas que contêm um poder transformador incalculável. Até no solo simples, até na massa sem graça, existe a possibilidade de transformação.”1

Viver com o coração voltado para realizações e sucesso é uma maneira egoísta de viver. Quando aquele vilarejo e aquelas pessoas nos foram tirados em meio a uma onda de problemas e mal-entendidos com o governo, senti que Deus não poderia, de modo algum, usar aquilo para o bem de alguém. Ele ainda precisava de nós lá, não é? A verdade é que Ele já não precisava de nós lá. Não éramos indispensáveis. Talvez Deus tenha permitido tudo aquilo para que eu aprendesse que a aceitação dele não se baseia nas minhas realizações.

Um pão cortado sobre uma tábua de madeira

Pois quem despreza o dia das coisas pequenas… –Zacarias 4:10.

Quem sou eu para julgar se determinada obra é pequena ou não? Fico inquieta com minhas responsabilidades, acreditando que Deus se agradaria mais da minha ideia de responsabilidades “grandiosas”, que parecem estar sempre fora do meu alcance? Estou me esquecendo de que servir a Cristo não diz respeito a mim e à minha sensação de realização; diz respeito a Deus e à obra que Ele quer realizar por meu intermédio?! Amy Carmichael disse: “Não importa o lugar onde estamos, nem o trabalho que fazemos ou não podemos fazer; importa outra coisa. É o fogo interior que arde e brilha, sejam quais forem as nossas circunstâncias.”2

O fogo que arde e brilha dentro de nós é o nosso segredo. Esse fogo pode arder enquanto esfregamos o chão, preparamos refeições sem fim e ensinamos nossos filhos em casa. Ele tocará a mulher que lava a roupa, a ajudante doméstica, a jovem que enfrenta dificuldades na igreja e os vizinhos. Às vezes isso acontecerá sem que percebamos; outras vezes, acontecerá se decidirmos estender a mão em vez de tirar uma soneca ou fazer outra coisa agradável. Mas sempre exige que nos esqueçamos de nós mesmos, amemos os outros e percebamos as pequenas oportunidades.

Mas cuidado… não podemos confundir a aceitação da pequenez em nossa vida com a apatia. Muitos cristãos não esperam que Deus os use e, por isso, acomodam-se numa posição de apatia espiritual. Devemos esperar que Deus opere de maneiras extraordinárias. Deus pode nos usar para realizar essas coisas, mas isso muitas vezes acontece de maneiras que menos imaginamos ou esperamos.

A viúva de Sarepta concordou em dar seu último punhado de farinha e as últimas gotas de azeite que lhe restavam a um desconhecido. Ela poderia ter se oposto ao profeta e exigido que ele fosse embora imediatamente, pois, afinal, era responsável por seu filho, e aquele pouquinho de farinha era tudo o que tinha para lhe dar. Mas não: ela escolheu dar tudo. Deus abençoou sua obediência voluntária, repondo milagrosamente a farinha e o azeite enquanto ela precisou deles.3

Deus foi reduzindo o exército de Gideão até que, por fim, ele lutou e venceu a batalha com apenas algumas centenas de homens. Normalmente, Gideão estava acostumado a exércitos de milhares; agora, porém, Deus lhe pedia que travasse uma batalha monumental com apenas algumas centenas. No fim, essa impossibilidade humana tornou-se uma oportunidade para Deus mostrar seu poder.4

No início de seu ministério, Jesus escolheu apenas doze homens para discipular, em vez de escolher as multidões. No fim, aquele pequeno grupo de homens o abandonou. Ele foi escarnecido e morto. Para todos os que observavam, parecia que o que restava da obra de Jesus havia morrido com Ele; no entanto, o plano cósmico da redenção estava sendo posto em ação — aqueles simples pescadores viraram o mundo de cabeça para baixo com o evangelho.5

Vemos por esses exemplos que Deus não está à procura dos maiores, dos mais fortes ou dos melhores. Ele não usa somente pessoas com habilidades especializadas ou dons impressionantes. Nossa força e nossos recursos muitas vezes se parecem com os poucos soldados do exército de Gideão — simplesmente não são suficientes para a necessidade. Mas, quando oferecemos o que temos com disposição, Deus multiplica nossos pequenos esforços e os transforma numa demonstração da sua graça — uma demonstração destinada a Ele, muitas vezes invisível aos outros. O simples ato de arrumar a mesa é um ato de fé, de generosidade e de serviço, onde quer que estejamos. Deus escolheu essas coisas fracas para que fossem significativas em seu Reino.

O segredo de uma vida bem-sucedida é Jesus em nós, não nossas ideias preconcebidas de sucesso. Com Ele operando em nós e por nosso intermédio, seu poder arderá em nossos lares e bairros. Quando Ele é a razão pela qual vivemos, podemos confiar a Ele o resultado. Ao ouvir a voz de Jesus, podemos fazer a diferença — uma pessoa, um encontro, uma pequena coisa de cada vez.

  1. Elisabeth Elliot, The Savage My Kinsman (edição revista, Servant Publications, 1981), epílogo, p. 147
  2. Amy Carmichael, Edges of His Ways, p. 218
  3. 1 Reis 17: 11-16
  4. Juízes 7
  5. Lucas 6:13-16, João 19
  • Um pão cortado sobre uma tábua de madeira · Adobestock.com

Referência da revista

Pequenas coisas. by Sheryl Zeiset Lebanon, PA. The Heartbeat of the Remnant, Inverno 2021 · Volume 25 · Número 4. Páginas de origem 20–21.

The Berean Voice

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