Lá estava Ele, o próprio Rei, diante de Pilatos, aguardando a sentença de morte. Uma grande multidão se reunira do lado de fora. Não havia dúvida: aquelas pessoas estavam furiosas. Queriam que aquele homem, Jesus de Nazaré, morresse. “Crucifica-o! Crucifica-o!” era tudo o que se ouvia. Aquele homem devia ter feito algo terrível. Mas quem eram aquelas pessoas tão iradas contra o Filho de Deus? Talvez fossem estupradores, ladrões e assassinos. Possivelmente eram os mentirosos, bêbados ou outros malfeitores da região. Na verdade, eram pessoas religiosas, frequentadores da igreja, aqueles que afirmavam ser o povo de Deus.
Desde aquele dia infame, a história tem se repetido. Pessoas que afirmam ser o povo de Deus têm visto como inimigos aqueles que amam Jesus e tentam seguir os Seus ensinamentos, e os têm perseguido de todas as maneiras possíveis. Dos judeus aos católicos romanos e aos protestantes, a igreja dominante de cada época sempre foi inimiga daqueles que tentam reger o seu cotidiano pela clareza simples das Escrituras.
Preocupa-me que tenhamos firmado um acordo com a igreja dominante de nossos dias — um acordo de paz a qualquer custo.
Qualquer passagem das Escrituras que ensine repreensão, admoestação ou correção é considerada ultrapassada e não pode ser usada para ajudar a moldar a fé e a prática do cristão de hoje. Muitos indivíduos, líderes de igrejas e até igrejas inteiras começaram a acreditar que apenas o amor e a aceitação são uma maneira melhor de apontar outros para Cristo. Aqueles que levantariam a voz em advertência são considerados críticos e causadores de perturbação e, por isso, são rapidamente silenciados.
Ao examinarmos as Escrituras, vemos que Jesus, depois os discípulos e, então, a igreja primitiva nada tinham de bom a dizer ou pensar sobre a igreja falsa.
Quando saio para testemunhar ou conversar com as pessoas sobre o Senhor, fico espantado com a reação hostil da igreja dominante de nossos dias. Principalmente, da igreja protestante.
Um homem simples aproximou-se de um concerto cristão segurando uma placa que dizia: “Jesus salva do pecado”. Sem sequer dizer uma palavra, foi atacado. “Pare de nos julgar!” “Você não conhece o nosso coração!” “Você é uma vergonha!” “Intolerante!” O homem afastou-se lentamente.
Muitas vezes, as pessoas que ficam iradas quando surgem conversas sobre Deus são, na verdade, pessoas que afirmam conhecer Jesus. Os pecadores parecem deixar a mensagem penetrar-lhes o coração. Se você fosse a um cruzamento de uma cidade e simplesmente segurasse uma placa proclamando algo sobre Cristo, logo veria que isso é verdade.
Enquanto esperava na fila de um restaurante de comida rápida, notei que o jovem que preparava meu sanduíche tinha muitas tatuagens interessantes. Algumas eram lápides, crânios e outros desenhos explícitos. Perguntei-lhe calmamente se poderia explicar o que as tatuagens significavam para ele. Ele começou a descrever cada uma em detalhes. Então perguntei ao jovem se conhecia Jesus. Ele ficou sério e explicou que queria crer em Deus, mas não conseguia. Citei alguns versículos da Bíblia e disse-lhe que Deus estava à sua espera. Percebi que a Palavra de Deus estava tendo um grande efeito sobre o jovem.
Enquanto isso, também notei que a mulher atrás de mim começava a ficar impaciente. Por fim, interrompeu nossa conversa e disse ao homem: “Jesus ama você exatamente como é. Você não precisa mudar por causa desse homem.” Mais tarde, essa mulher me disse a que igreja ia e o quanto achava que eu tinha agido de forma julgadora. Fiquei espantado. Eu apenas tinha falado ao jovem sobre o Salvador!
Antes de sair do restaurante, voltei até o jovem para me despedir. Quando me aproximei, ele ergueu os olhos, com lágrimas. “Obrigado”, disse ele. “Percebo que você realmente se importa comigo. Vou para casa e pensar de verdade no que você disse.”
Naquela noite, ao refletir sobre os acontecimentos do dia, perguntei-me por que aquela mulher, que professava ser cristã, tinha tanto problema com a minha conversa com o jovem. Por que ficou tão irada? Senti que o Senhor me deu uma resposta: Ninguém pode servir a dois senhores: pois odiará um e amará o outro; ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas –Mateus 6:24.
Ela era uma jovem simpática. E, sim, professava ser cristã, mas claramente não vivia uma vida obediente à Palavra de Deus. Na verdade, além de ir à igreja, ninguém conseguiria perceber que ela era seguidora de Cristo. Tenho certeza de que, se a tivesse encontrado no parque, poderíamos ter tido uma conversa agradável. Tenho certeza de que ela teria sido cortês e educada. Tenho certeza de que teria se apresentado como uma boa cidadã e uma pessoa simpática. Mas, quando se tratava de se entusiasmar com Jesus, compartilhar o evangelho e falar da Palavra de Deus, seu verdadeiro caráter se revelava.
Estou dizendo que uma pessoa precisa ser anabatista para chegar ao céu? De modo algum; mas estou dizendo que precisamos obedecer à Bíblia e seguir a Cristo para chegar ao céu. A maioria dos cristãos professos é muito simpática e parece piedosa, até começarmos a falar sobre Deus.
Desde quando a definição de cristão passou a ser “uma pessoa simpática” ou “um bom cidadão”? É só isso agora — simplesmente fazer o que se quer, encontrar uma igreja divertida que nada exige de você, conseguir um bom emprego, casar-se, ter alguns filhos e, pronto, você é “cristão”? Que Deus nos ajude!
Quando conversava com um grupo de pessoas sobre serem ou não verdadeiros seguidores de Deus, Jesus disse: …Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim, homem que vos disse a verdade … Vós fazeis as obras de vosso pai … Vós sois do vosso pai, o diabo… –João 8:39-44.
Será que a verdadeira igreja se desviou tanto a ponto de não conseguir chamar as coisas pelo que são? A Palavra de Deus nos dá um entendimento claro a respeito: Provando o que é agradável ao Senhor. E não tenhais comunhão com as obras infrutíferas das trevas; antes, reprovai-as. Pois é vergonhoso até falar das coisas que eles fazem em segredo. Mas todas as coisas que são reprovadas se tornam manifestas pela luz; porque tudo o que se manifesta é luz –Efésios 5:10-13.
Jesus diz: Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte –Mateus 5:14. Expomos o pecado e a heresia da mesma forma que a luz expõe a escuridão? Ou estamos apegados demais a uma vida confortável, sem inimigos? Não precisamos ter medo do mundo nem da igreja falsa, pois sabemos que temos aquilo de que eles precisam! Há anos, as igrejas dominantes vêm se afastando cada vez mais da verdade da Palavra de Deus. Temos medo de reconhecer isso? Temos medo de nos separar disso? Vamos nos posicionar contra isso, como fez a igreja primitiva?
Há uma razão pela qual o reformador protestante Martinho Lutero morreu odiando o povo anabatista: porque rejeitaram a interpretação das Escrituras dele. O povo anabatista não fazia acepção de pessoas. Em vez disso, seu único respeito era por Deus e por Sua Palavra, e isso sem concessões. Foi por isso que foram perseguidos. Teria sido muito mais fácil para aqueles jovens piedosos simplesmente ficar calados e tentar se dar bem com católicos e protestantes, mas eles se recusaram, e ambos os grupos procuraram exterminá-los. Ainda assim, eles sobreviveram, confiando somente em seu Deus. Quando nos juntamos à igreja de Jesus Cristo, não prometemos continuar lutando a mesma luta — a mesma luta que Jesus travou; a mesma luta que a igreja primitiva travou — a luta contra a igreja falsa? Ou concordamos em nos dar bem, em nome da paz? Afinal, isso não é melhor para os negócios, para as amizades e para a reputação?! Deus nos livre!
Podemos viver uma vida que parece não ter pecado e, ainda assim, viver em desobediência. A Bíblia nos chama à ação! Somos chamados a ser luzes, testemunhas, a buscar a piedade e a viver com retidão, não apenas a fazer uma boa encenação. Creio que isso se tornou popular em nossos dias. Mentir, trapacear, roubar e matar são características que até o mundo rejeita. O que está “na moda” é ser respeitável, ganhar bem e ser um cidadão exemplar. Mas essa é a vida de um crente nascido de novo? Devemos nos encaixar no sonho americano? Será que a única diferença entre nós e a igreja protestante deve ser uma cobertura para a cabeça? Acho que devemos considerar em oração essa iniciativa, a de dar as mãos à igreja dominante.
Conheço pessoalmente muitos cristãos protestantes. Não estou tentando dizer que são pessoas más; muitos são gente boa. Mas não é disso que estamos falando. Creio que precisamos traçar uma linha e desacelerar essa tendência de nos juntarmos a eles de qualquer forma que implique concessões. Vejamos apenas algumas das diferenças entre protestantes e anabatistas.
Guerra
É possível acreditar na guerra, matar os inimigos e ainda assim ser cristão do Novo Testamento? A maioria dos protestantes apoia lutar por nossas liberdades e nossos direitos. Muitos chegam a chamar os anabatistas de covardes por não lutarem.
Anos atrás, um grupo de cristãos professos se reuniu em torno da maior bomba já fabricada. Essa bomba estava prestes a ser enviada a uma terra estrangeira para destruir uma cidade inteira; ela fora concebida para matar tudo em seu caminho. Homens, mulheres e crianças morreriam por causa dessa bomba; esse era o plano. Enquanto o grupo se reunia em torno dela, começaram a orar e pediram a bênção de Deus sobre aquela missão de bombardeio. Depois, agradeceram-Lhe pelo sucesso — a morte de quase um quarto de milhão de almas.
Jesus nos chama a amar os nossos inimigos. Esse tema separou claramente as igrejas durante as várias guerras. A maioria das igrejas “cristãs” do mundo apoiou o esforço de guerra de seu país. Os anabatistas não o fizeram e foram duramente perseguidos por isso. Então, podemos ser cristãos e continuar apoiando a guerra? Se apoiarmos a guerra, onde isso vai parar? Também nos prepararemos para nos defender, a nós mesmos e às nossas famílias, da violência e da ilegalidade? A igreja americana chama de heroísmo ou bravura “defender a nós mesmos”, nossas famílias e nosso país; a Bíblia chama isso de.
Entretenimento
Parece que a maioria dos cristãos na América não vê problema em assistir a tantos jogos e eventos esportivos quanto quiser. Há filmes e televisão em quase todos os lares. Ir à praia, a cassinos e a festivais é algo corriqueiro. Gastar milhares em grandes expedições de caça e férias caras é feito sem pensar duas vezes. Para ser sincero, realmente não há limites para o que o cristão na América pode fazer, desde que lhe pareça certo. Jesus nos diz várias vezes que devemos negar a nós mesmos. Parece que procuramos qualquer brecha possível para nos entregar a todas as atividades de satisfação própria que quisermos! Não é de admirar que a igreja esteja enfrentando dificuldades com a pornografia e muitos outros pecados da carne. Quando aprendermos a negar a nós mesmos, tomar a cruz e seguir Jesus, começaremos a ver uma separação clara, distinta e ampla entre nós e a igreja dominante de nossos dias.
Não conformidade
É comum conformar-se ao que nos rodeia. Essa é uma das razões pelas quais não mandamos nossos filhos para escolas públicas. Jesus também deixa muito claro que precisamos sair do meio deles e nos separar, dizer “Não” às conversas corruptoras e aos caminhos deste mundo, e não ter medo de nos identificar com o povo de Deus. Parece quase que a maneira de vestir é realmente a única coisa que separa muitos de nós, e isso também está mudando.
Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida — não vem do Pai, mas do mundo –1 João 2:15-16. Onde estão as pessoas que odeiam o mundo? Onde estão as pessoas que querem ser o mais separadas possível? Onde estão as pessoas que não têm medo de ser ridicularizadas? Onde estão as pessoas que não têm medo de ser diferentes? Ah, onde está o povo de Deus?! Se a história se repetir, em breve não haverá diferença entre a igreja e o mundo. Ah, onde estão os homens?!
Ouvi muitos anabatistas dizerem que não podem afirmar que os que estão na igreja mundana não são cristãos; simplesmente não querem seguir nessa direção. Isso é verdadeiro? É essa a mensagem que queremos transmitir aos nossos jovens e aos nossos filhos? Não creio. A Bíblia diz que poucos conseguirão. Se transmitirmos aos nossos filhos que a igreja protestante também é aceitável e que eles apenas fazem as coisas de outra maneira, estaremos destruindo tudo o que Jesus pregou. Estaremos dizendo que fazemos o que fazemos não porque a Bíblia o diz, mas porque decidimos o que fazer com base nas nossas circunstâncias e no que os outros ao nosso redor pensam! Não é de admirar que nossos filhos estejam mais interessados na igreja moderna de hoje do que nunca — não há linha divisória!
Uma igreja moderna chamou minha atenção. Pareciam estar fervorosos pelo Senhor! O pastor pregava como um homem à beira da morte. Estavam muito interessados em alcançar os perdidos. Mas havia tantos ensinamentos bíblicos que simplesmente ignoravam! Por fim, levei a questão ao Senhor. “O que está acontecendo aqui, Deus!” Foi como se Deus me dissesse: “Espere um pouco”.
Pouco depois, o pastor foi afastado de seu cargo porque estava tendo um caso. Então tudo ficou claro para mim: você pode ter uma igreja simpática, pode pregar uma boa mensagem e ajudar os pobres, mas, se não estiver disposto a obedecer a TODOS os ensinamentos do Novo Testamento, não é um verdadeiro cristão e não encontrará vitória. É fácil levar o cristianismo até certo ponto, mas não é fácil vender tudo o que você tem, colocar tudo no altar e seguir o seu Mestre. Sei que isso é contundente, mas é a verdade da Palavra de Deus.
Eu conversava com uma jovem em um ambiente protestante, que queria entregar a vida ao Senhor. Ela estava pronta para fazer o que fosse necessário, ou pelo menos dizia estar. Perguntei-lhe se estava pronta para sofrer por Jesus, se estava pronta para se separar dos antigos amigos, se estava pronta para ser odiada pelo mundo e pronta para ser diferente. Perguntei se estava disposta a mudar a sua aparência. Não demorou muito para que ela respondesse, espantada, com um enfático “Não!” “Quero começar a ir à igreja, mas não quero todo o resto.” Mais tarde, vi-a com os amigos, apontando para mim e rindo. Ser descolado não define um verdadeiro cristão, mas ser rejeitado por causa do Evangelho, sim.
Este é um artigo difícil de escrever. Não é uma mensagem popular nem muito encorajadora. Mas acho que é uma mensagem que precisamos considerar hoje, não apenas por nós, mas também por nossos filhos e pela igreja de amanhã. Precisamos traçar linhas claras de separação, sem concessão alguma. Precisamos avaliar honestamente a igreja moderna de nossos dias à luz dos ensinamentos claros do Novo Testamento. Precisamos chamar o pecado de pecado. Precisamos chamar a desobediência de pecado. Precisamos chamar a concessão de pecado. Precisamos escolher novamente sofrer com o verdadeiro povo de Deus. Isso não significa que devemos evitar as pessoas ou agir de maneira desagradável com elas, mas, com amor no coração e uma mensagem nos lábios, apontamos as multidões para Cristo!
Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego –Romanos 1:16.



