Se alguma vez houve uma frase característica de nosso Senhor Jesus Cristo, certamente esta seria. Às vezes no início de um discurso, e às vezes na conclusão, o público o observava fazer uma pausa durante a fala, olhar ao redor para os que estavam com ele e dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” Era um chamado solene para refletir sobre aquilo que lhes estava sendo apresentado. Era um lembrete hábil para que todos ao alcance de sua voz assumissem plena responsabilidade pelo que tinham ouvido. Todos estavam escutando, mas nem todos estavam ouvindo. Cristo sabia disso intuitivamente. Podia perceber pela expressão no rosto deles. Todos os ouvidos estavam sujeitos às mesmas palavras, mas cada coração recebia o discurso de maneira diferente.
Certa vez, um menino respondeu à mãe: “Claro, ouvi você me chamar, mas ainda não parecia que você falava sério.” Assim, compreendemos que ouvir não é uma mera atividade física. É, antes, a reação da alma aos sons que lhe são apresentados. Assim como dois homens podem contemplar o mesmo acontecimento e, ainda assim, enxergar nele coisas muito diferentes, também podem escutar o mesmo conjunto de palavras e chegar às percepções mais distintas. Pois não é com o ouvido que ouvimos, mas com a alma. Não podemos escolher tudo o que viaja pelas ondas do ar e penetra em nossos ouvidos, mas nossa alma pode emitir um juízo sobre tudo isso. O que ouvimos revela não apenas a língua de outra pessoa, mas também o nosso próprio caráter. Expõe aquilo que amamos e aquilo que odiamos. Desperta ou resiste às paixões que nos governam. Desvenda nosso caráter e pavimenta nosso destino. Dois homens olharam através das grades da prisão. Um viu lama, o outro viu estrelas –desconhecido.
É claro que existe um sentido literal em que nossa audição independe da nossa vontade. Não podemos escolher inteiramente o que ouvimos, assim como não podemos escolher tudo o que vemos. Todos os dias, milhares de vibrações são lançadas em nossa direção em rápida sucessão, e nós as ouvimos, queiramos ou não. Algumas são fortes e evidentes. Outras são subliminares, e apenas nossa mente subconsciente as recebe. Os que vivem na cidade são bombardeados pela multiplicidade dos sons da rua. Os que estão junto ao oceano não podem escapar da música monótona do mar.
Nossa mente está acostumada a desligar-se de sons monótonos, por mais alto que seja o volume. Ainda assim, quando assuntos importantes atravessam nossa esfera, escutamos com grande interesse. Enquanto o motorista de um automóvel talvez ouça apenas a modulação constante do motor sob seu comando, o mecânico experiente talvez ouça uma dúzia de outros sons vindos do mesmo veículo. É uma falha na virtude do primeiro não conseguir ouvir o cilindro falhando ou os freios rangendo? Sim, pois não é com o ouvido que ouvimos, mas com o caráter da nossa vontade. Se se importasse, também poderia aprender a ouvir. O mesmo é verdadeiro nas questões espirituais. Um sermão que examina a alma revela o pregador. A maneira como respondemos à exortação e ao desafio revela quem ouve.
Nossa personalidade singular
Os que não se interessam por matemática, motores ou música conseguem levar a vida muito bem, embora deixem de assimilar noventa por cento dos sons que entram em seu campo auditivo relacionados a esses temas. É quando nossos principais interesses estão fora da esfera de Deus que nossa capacidade de ouvir é considerada prejudicada. Podemos ter as melhores intenções de ser crentes sinceros, mas, sem o vivificar inato do Espírito, não conseguiremos compreender as coisas que Deus quer que ouçamos.
As coisas nas quais fixamos o coração e às quais intuitivamente dedicamos nossas energias determinarão o que ouvimos. Cada tentação que já enfrentamos, e cada pecado contra o qual já lutamos e que vencemos, determina o tipo de coisa que ouviremos ao longo da nossa peregrinação. Viva com parcimônia e ouvirá pouco, ainda que esteja escutando um anjo do céu. Viva nobremente e ouvirá nobremente, ainda que tudo o que o ouvido capte seja apenas mediocridade.
Houve uma multidão de pessoas que teve a oportunidade extraordinária de ouvir a voz do próprio Criador. Portanto, o povo que estava ali e a ouviu dizia que tinha sido um trovão; outros diziam: Um anjo lhe falou –João 12:29. Era a mesma voz que ressoava em todos os ouvidos e, no entanto, para uns soava como a voz dos anjos, enquanto para outros não havia nela nada além do estrondo confuso do trovão nas colinas. Se apenas o ouvido humano estivesse envolvido, não haveria diversidade de testemunhos. Mas aqueles homens não ouviam com o ouvido; ouviam conforme aquilo que eram. A orientação de seus corações, moldada por todo o seu passado, seus hábitos, suas tradições e sua maneira de receber as coisas comuns da vida, levou-os subconscientemente a formar sua própria conclusão sobre a interpretação da voz do Senhor.
Isso acontece continuamente, todos os dias, com todos. Nosso juízo sobre os outros é nosso próprio juízo. Muitas vezes, nosso julgamento de um ministro ou de um sermão é, na verdade, um julgamento de nós mesmos. Escutamos não com o ouvido físico, mas com nossos amores e ódios, nossos ressentimentos e preferências. Escutamos através dos recessos ocultos do nosso coração. Quando Cristo disse: …não podeis ouvir a minha palavra –João 8:43, não foi por falta de microfone. Não havia nenhuma barreira física. O obstáculo era espiritual. Preconceitos, ciúmes e antagonismos tornavam inaudível para eles a mensagem de Cristo, embora cada sílaba lhes chegasse aos ouvidos.
Por que não compreendeis a minha fala? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós sois do vosso pai, o diabo, e quereis satisfazer os desejos do vosso pai… Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus –João 8:43-47.
Há um fator esquivo e corrosivo que está deteriorando a fibra moral desta nação. Embora alguns concluam que o transtorno do déficit de atenção seja uma doença que ataca implacavelmente suas vítimas contra a vontade delas, a honestidade certamente levará a outra conclusão. Poderia muito bem ser considerado déficit espiritual de atenção. Em termos gerais, isso é apenas interesse seletivo. Ponha um smartphone ou um videogame diante dos olhos da maioria dessas pessoas, e não faltará atenção. Nossos interesses são moldados pelo ambiente. Os que passam incontáveis horas diante da televisão e de imagens de vídeo estão debilitando sua capacidade de ouvir uma mensagem solene. Quanto mais nossos ouvidos são expostos a sinais degradantes, mais certamente os incapacitamos para ouvir a Palavra de Deus.
Corações endurecidos
E disse: Vai e dize a este povo: Ouvindo, ouvireis, mas não entendereis; e vendo, vereis, mas não percebereis. Engorda o coração deste povo, torna pesados os seus ouvidos e fecha os seus olhos; para que não vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, nem entendam com o coração, nem se convertam e sejam curados –Isaías 6:9-10.
Enquanto alguns se resignam a esse destino, outros se protegerão dos maiores inimigos dos ouvidos…
…Distração
Vivemos numa sociedade em que as pessoas prosperam na atividade e detestam ficar quietas. Foram treinadas para dedicar sua atenção aos aparelhos do mundo eletrônico e aos estímulos sociais. Se uma mensagem de texto chega ao dispositivo delas, certamente receberá atenção imediata, enquanto qualquer meditação em oração terá de esperar em segundo plano. Os que passam muito tempo diante de uma tela de vídeo terão os ouvidos entorpecidos pela sucessão de uma nova cena a cada cinco segundos (em média). Coloque isso diante de uma hora de pregação aprofundada e essas almas estarão sem fôlego. Para muitos de nós, a solidão quase se extinguiu desde o advento do telefone celular e das redes sociais, enquanto nossa capacidade de concentração se deteriorou fatalmente.
…Perfeição
Nos fones de ouvido, só ouvimos as melhores gravações musicais. Isso pode ensurdecer nossos ouvidos para a mensagem oferecida por um canto simples, sincero e humilde. Muitas vezes, a mensagem acaba sendo desprezada e descartada porque a embalagem é imperfeita. À medida que o padrão intelectual se eleva, muitas vezes o coração desce ainda mais. Quem hoje seria tocado pela mensagem saída dos lábios de pescadores incultos e sem instrução? Se um orador precisa ser eloquente e formado no mundo profissional para prender nossa atenção, é duvidoso que nos impressionássemos com os vagos murmúrios vindos do céu. Os que precisam receber o evangelho numa bandeja de prata certamente empobrecerão em espírito, enquanto seus corações engordam.
…Ficção
Dos filmes aos romances, fomos bombardeados com ideais de pastagens mais verdes em outros lugares. Uma moça que se alimenta de histórias românticas certamente ficará decepcionada depois de se casar. O que é comum jamais despertará nosso apetite enquanto ele for alimentado por elementos fictícios externos. …Um profeta não fica sem honra, a não ser na sua terra e na sua casa –Mateus 13:57. Conhecemos as imperfeições do ministro da nossa comunidade, do nosso irmão ou de um familiar. Se eles nos trouxerem uma mensagem do trono de Deus, ouvidos embotados não a perceberão. As pessoas se aglomeram para ouvir pregações inspiradoras e propaganda de seminários num ambiente ecumênico. Embora grandes verdades possam ser apresentadas, o ambiente é irreal e muitas vezes só serve para engordar o coração e causar, por fim, decepção em casa.
…Reputação
Muitas pessoas escutarão uma miríade de vozes para preservar a própria imagem. Chamamos isso de mente aberta. Mas o céu sabe que as muitas coisas questionáveis que as pessoas nos apresentam realmente dependem do nosso caráter pobre e nunca chegariam até nós se Cristo fosse nossa plena devoção. Há pessoas com quem jamais sonharíamos em compartilhar nossas fofocas. Elas não as ouvem por causa de um princípio que guardam no íntimo. Ninguém lhes conta histórias desagradáveis ou obscenas, simplesmente por causa do caráter pelo qual são conhecidas. Se alguém me contasse uma história censurável, eu sentiria muita vergonha. Não apenas do narrador, mas também de mim mesmo. Eu deveria me envergonhar por ele ter essa opinião de mim e do tipo de coisa que gosto de ouvir, a ponto de se atrever a trazer esse lixo à minha atenção. Assim, muitas vezes, o tipo de coisa que ouvimos depende do tipo de caráter que temos. Portanto, somos, em última análise, responsáveis pelo que permitimos que entre em nossa alma pelos ouvidos.
Corações ardentes
Enquanto dois discípulos desalinhados caminhavam penosamente pela estrada de Emaús, um visitante celestial os alcançou e perguntou sobre seu estado melancólico. Eles tinham lido os profetas, ouvido Cristo falar, talvez visto os milagres e depois o visto sofrer e morrer. Enquanto se admiravam com a ignorância daquele recém-chegado sobre os acontecimentos recentes, ele os descreveu como …lentos de coração para crer em tudo o que os profetas disseram –Lucas 24:25. À medida que a noite avançava e eles percebiam que tinham estado face a face com o Salvador ressuscitado, …disseram um ao outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras? –Lucas 24:32.
Alguns podem afirmar que “fazer arder os corações” é responsabilidade de todo ministro fiel. Isso precisa ser reconsiderado. Certamente não há lugar para uma pregação sem convicção por parte de ministros sem convicção. Os que são chamados para uma posição tão nobre devem levar essa responsabilidade suficientemente a sério para fazer da oferta de alimento sólido — leite e carne — aos ouvintes sua maior preocupação. Mas aqueles que consideram sua responsabilidade fazer arder os corações do público muitas vezes serão vítimas de uma pregação teatral (fale mais alto, talvez respondam; toque as cordas emocionais, talvez chorem). Mas as técnicas de oratória só podem produzir efeitos terrenos. Somente a verdade pode abalar os alicerces da alma imortal.
Fazer arder os corações é, principalmente, responsabilidade do Espírito Santo e dos ouvidos sobre os quais recai a pregação. Cristo poderia ter dito as mesmas palavras aos endurecidos soldados romanos e recebido uma indiferença sórdida. Se tivesse dirigido sua mensagem aos ouvidos de um casal de jovens apaixonados que passeava ao entardecer, eles teriam saído de sua presença na primeira oportunidade. Se tivesse se revelado aos orgulhosos zelotes religiosos, talvez tivessem tentado matá-lo outra vez. Não: esse sermão encontrou o apetite ávido de buscadores devotos, e seus corações arderam diante da revelação arrebatadora que chegava aos seus ouvidos. Tão ardente era o amor deles que …na mesma hora se levantaram, voltaram para Jerusalém e encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles –Lucas 24:33.
Toda a nossa esperança está naquilo que ouvimos, e todo o egoísmo também — todo o bem que já buscamos e todo o mal que já fizemos. Ame uma pessoa, e suas palavras serão doces. Odeie-a, e cada palavra sua será farpada. É por meio do amor e do ódio, da generosidade e da inveja que assimilamos cada palavra pronunciada. Assim, para conhecermos a nós mesmos, é vital prestar atenção não apenas às palavras que dizemos, mas também ao que ouvimos. As minhas ovelhas ouvem a minha voz –João 10:27, diz o nosso Mestre — elas a ouvem porque amam o Pastor. Os que aceitarem essa responsabilidade devem purificar-se da algazarra dos devaneios terrenos para dar ouvidos à Estrela da Manhã que se ergue, quando seus raios resplandecentes despontam sobre seus corações ardentes. Temos também uma palavra profética ainda mais segura, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a uma luz que brilha num lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da manhã se levante em vossos corações: –2 Pedro 1:19.



