Fui criado na Igreja da Inglaterra e era bastante religioso — pelo menos era o que a maioria das pessoas pensava. Levaram-me à igreja e fui batizado no dia certo; depois de algum tempo, fui confirmado e participei da comunhão. Mas eu não conhecia Jesus Cristo pessoalmente. Sabia um pouco sobre Ele, assim como talvez saiba um pouco sobre o presidente Taft, mas não O conhecia. Nunca houve um momento na minha vida em que eu duvidasse de que Deus existia ou de que Jesus Cristo era o Salvador do mundo; mas não O conhecia como meu Salvador pessoal. Nós, rapazes, fomos criados para ir regularmente à igreja, mas, embora tivéssemos uma espécie de religião, ela não significava muita coisa. Era como ter dor de dente. Sempre lamentávamos a chegada do domingo e ficávamos contentes quando chegava a manhã de segunda-feira. O domingo era o dia mais enfadonho de toda a semana, simplesmente porque havíamos entendido a religião pelo lado errado. Alguém pode pegar um atiçador pela ponta errada, e eu entendi a religião pelo lado errado e paguei caro por isso. Havia muitos ministros e muitas igrejas à nossa volta, mas nunca vimos algo como um verdadeiro convertido. Naquela época, não acreditávamos muito em conversões. Pensávamos que os chineses e os africanos precisavam se converter; mas a ideia de um inglês se converter era absurda, pois isso fazia parecer que ele era pagão antes de sua conversão.
Meu pai era apenas um homem do mundo, que amava todo tipo de coisas mundanas. Fizera fortuna na Índia e voltara à Inglaterra para gastá-la. Gostava muito de esportes de todo tipo. Treinava regularmente para poder caçar raposas, mas, acima de tudo, era um entusiasta das corridas de cavalos. Desde o início, era apaixonado por cavalos; quando via cavalos excelentes, comprava-os e treinava-os, e depois os levava às corridas. Tinha uma grande propriedade no campo, onde construiu uma pista de corrida, e venceu três vezes a maior corrida de obstáculos de Londres. Por fim, conseguiu um cavalo melhor do que qualquer outro que já tivera e estava tão certo de que venceria a corrida que escreveu a um amigo em Londres: “Se você for um homem sensato, virá à corrida amanhã e apostará no meu cavalo cada centavo que tiver.”
Sem que meu pai soubesse, aquele homem havia se convertido. O sr. Moody tinha vindo à Inglaterra e estava pregando. Naquela época, ninguém acreditava muito que alguém pudesse se levantar para pregar o Evangelho a menos que tivesse duas coisas: o título de reverendo e uma gravata branca no pescoço. Os jornais não conseguiam compreender um pregador como o sr. Moody, que não tinha nenhuma das duas coisas e, naturalmente, publicavam coluna após coluna contra ele. Mas não podiam deixar de perceber que ele conseguia atrair mais gente para suas reuniões do que meia dúzia de arcebispos, e que mais pessoas se convertiam por meio dele do que por meio de vinte ministros comuns. Naturalmente, não interpretavam corretamente as coisas. Diziam que o sr. Sankey tinha vindo vender órgãos e o sr. Moody, seus hinários. Meu pai lia os jornais dia após dia, e aquilo o divertia imensamente. Lembro-me de que, certa noite, jogou o jornal de lado e disse: “Bem, de qualquer modo, quando esse homem vier a Londres, vou ouvi-lo. Deve haver algo de bom nele, ou os jornais não o atacariam tanto.”
Bem, meu pai foi a Londres no dia seguinte, como prometera, e encontrou o amigo. Esse homem estivera na Irlanda quando o sr. Moody estava lá e, ao se preparar para sair de Dublin, perdera o trem. Deus estava até mesmo nisso: perder um trem. Era sábado à noite, e o homem teve de ficar até o domingo. Enquanto olhava as ruas naquela noite, viu os grandes cartazes anunciando Moody e Sankey e pensou: “Vou simplesmente ouvir esses americanos.” Foi, e Deus o encontrou; voltou, e Deus o converteu. Era um homem novo, mas, quando meu pai escreveu aquela carta, ele não dissera nada a respeito. Quando se encontraram e seguiram de carruagem, meu pai só falou de cavalos e disse àquele homem que, se fosse sensato, apostaria cada centavo que tinha naquele cavalo. Depois de terminar seus negócios, meu pai voltou até o amigo e perguntou: “Quanto dinheiro você apostou no meu cavalo?” “Nada.” Meu pai disse: “Você é o maior tolo que já vi; não lhe disse que cavalo bom ele era? Mas, apesar de ser um tolo, venha jantar comigo.” Depois do jantar, meu pai perguntou: “Então, aonde vamos para nos divertir?” O amigo respondeu: “A qualquer lugar.” Meu pai disse: “Bem, você é o convidado; pode escolher aonde iremos.” “Então, vamos ouvir Moody.” Meu pai disse: “Ah, não, hoje não é domingo. Vamos ao teatro ou a um concerto.” Mas o homem disse: “Você prometeu que iríamos aonde eu escolhesse.” Por isso, meu pai teve de ir. Descobriram que o local estava lotado e não havia assentos no salão, exceto os reservados. Aquele homem sabia que nunca conseguiria levar meu pai até lá novamente, então abriu caminho em meio à multidão até encontrar um dos membros da comissão. Disse-lhe: “Escute; trouxe aqui um cavalheiro rico, apaixonado por esportes, mas nunca mais conseguirei trazê-lo se não conseguirmos um lugar para ele.” O homem os levou para dentro e os colocou bem diante do sr. Moody. Meu pai não tirou os olhos do sr. Moody até que ele terminou sua pregação. Depois da reunião, meu pai disse: “Voltarei para ouvir esse homem. Ele acabou de me dizer tudo o que eu já fiz.” Meu pai continuou indo até que se converteu de maneira profunda e verdadeira.
Naquela tarde, meu pai estivera dominado por algo que toma conta do coração e da mente de um homem mais do que qualquer outra coisa — a paixão pelas corridas de cavalos; e, à noite, era um homem transformado. Era a mesma pessoa por fora, mas, por dentro, era um homem inteiramente novo. Quando nós, rapazes, voltamos da faculdade, não entendemos o que havia acontecido com ele, mas meu pai não parava de nos dizer que havia nascido de novo. Pensávamos que ele simplesmente tinha nascido de cabeça para baixo, pois vivia nos perguntando sobre nossa alma, e não gostávamos disso. Naturalmente, ele nos levou para ouvir o sr. Moody, e ficamos bastante impressionados, mas não nos convertemos.
Quando meu pai se converteu, naturalmente não podia continuar vivendo como antes. Não podia ir a bailes, festas de cartas e coisas desse tipo. Sua consciência lhe dizia isso, e ele disse ao sr. Moody: “Quero ser franco com o senhor. Se eu me tornar cristão, terei de abandonar as corridas, o tiro, a caça, o teatro e os bailes?” “Bem”, disse o sr. Moody, “sr. Studd, o senhor foi franco comigo; serei franco com o senhor. Corridas significam apostas, e apostas significam jogo de azar, e não vejo como um jogador pode ser cristão. Faça as outras coisas enquanto quiser.” Meu pai voltou a perguntar sobre o teatro e as cartas, e o sr. Moody disse: “Sr. Studd, o senhor tem filhos e pessoas que ama; agora o senhor mesmo está salvo e quer que eles também sejam salvos. Deus lhe dará algumas almas e, assim que ganhar uma alma, não se importará com nenhuma dessas outras coisas.” E, de fato, para nossa surpresa, descobrimos que meu pai já não se importava com nenhuma dessas coisas; só se importava com uma coisa: salvar almas.
Ele nos levou para ouvir o sr. Moody e outros homens e, quando o sr. Moody deixou a Inglaterra, meu pai abriu sua casa de campo e passou a realizar reuniões ali à noite. Convidava ministros e homens de negócios de Londres para virem falar às pessoas sobre a salvação de suas almas. As pessoas vinham de muitos quilômetros de distância para participar das reuniões, e muitas se convertiam. Certo dia, um desses senhores veio pregar e, quando eu estava saindo para jogar críquete, ele me pegou desprevenido e perguntou: “Você é cristão?” Respondi: “Não sou o que o senhor chama de cristão. Creio em Jesus Cristo desde que era pequenino. Naturalmente, também creio na igreja.” Pensei que, respondendo de maneira bastante próxima ao que ele queria ouvir, conseguiria me livrar dele, mas ele se manteve firme como cera e disse: “Escute: Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Você acredita que Jesus Cristo morreu?” “Sim.” “Acredita que Ele morreu por você?” “Sim.” “Acredita na outra metade do versículo — ‘terá a vida eterna’?” “Não”, respondi, “não acredito nisso.” Ele disse: “Você não acha que está sendo um pouco incoerente, acreditando em uma metade do versículo e não na outra?” “Acho que sim.” “Bem”, disse ele, “vai continuar sendo incoerente para sempre?” “Não”, respondi, “acho que não para sempre.” Ele perguntou: “Vai ser coerente agora?” Vi que estava encurralado e comecei a pensar: “Se sair desta sala sendo incoerente, não vou conservar muito respeito por mim mesmo.” Respondi: “Sim, serei coerente.” “Bem, você não vê que a vida eterna é um presente? Quando alguém lhe dá um presente no Natal, o que você faz?” “Eu o aceito e digo: ‘Obrigado.’” Ele disse: “Você agradecerá a Deus por esse presente?” Então me ajoelhei e agradeci a Deus. E, naquele mesmo instante, a alegria e a paz entraram em minha alma. Foi então que compreendi o que era nascer de novo, e a Bíblia, que antes me parecia tão árida, tornou-se tudo para mim.
Certo dia, quando eu estava em Londres, um amigo me convidou para tomar chá com ele e sua esposa, que eram cristãos. Depois do chá, enquanto conversávamos sobre a Bíblia junto à lareira acesa, esse amigo disse: “Você ouviu falar da bênção maravilhosa que a sra. Watson recebeu recentemente?” Respondi: “Mas ela é cristã há muito tempo.” Ele disse: “Sim, mas agora está bem diferente.” Eu tinha ouvido pessoas falarem de receber outras bênçãos além da conversão, mas não acreditava nisso. Então meu amigo abriu a Bíblia e mostrou com bastante clareza, pelas Escrituras, que havia outras bênçãos além da conversão. Depois perguntou: “Você recebeu essas outras bênçãos?” Respondi: “Não, não recebi.” Eu estava simplesmente irritado, porque queria saber o que devia fazer por Deus. Ajoelhamo-nos e pedimos a Deus, com toda simplicidade, que nos desse tudo o que tinha para nós. Quando voltei ao meu quarto, encontrei o livro “O segredo cristão de uma vida feliz”. Naquela noite, levei a sério o assunto, e tudo pareceu tão claro — talvez fossem verdades antigas, mas naquela ocasião me tocaram profundamente. Eu sabia que Jesus Cristo tinha morrido por mim, mas nunca havia compreendido que, se Ele morrera por mim, eu já não pertencia a mim mesmo.
Redenção significa “comprar de volta”; portanto, se eu pertencia a Ele, ou tinha de ser um ladrão e ficar com o que não era meu, ou tinha de entregar tudo a Deus. Quando compreendi que Jesus Cristo morrera por mim, não me pareceu difícil entregar tudo a Ele. Pareceu-me simplesmente uma questão de honestidade comum e corriqueira.
Então li no livro: “Quando você se entrega por completo a Deus, entrega a Ele toda a responsabilidade, bem como todo o resto. É Deus quem tem a responsabilidade de cuidar de você, e tudo o que você precisa fazer é confiar. Ponha sua mão na dele, e o Senhor o guiará.” Depois disso, tudo pareceu bem diferente e, em muito pouco tempo, Deus me mostrou o que fazer e para onde ir. Deus não fala primeiro à pessoa por meio da mente; fala primeiro ao coração. Deus colocou isso em meu coração e fez nascer em mim o desejo de ir à China.
Havia muitas dificuldades no caminho. Talvez alguns de vocês também enfrentem dificuldades. Não desistam por causa delas. Não houve um só parente meu que não achasse que eu tinha enlouquecido completamente. Meu irmão mais velho, que era um cristão verdadeiro, disse-me certa noite: “Charlie, acho que você está cometendo um grande erro.” Respondi: “Não há engano algum nisso.” Ele disse: “Você passa todas as noites nas reuniões e não vê a mãe. Eu a vejo, e isso está partindo o coração dela. Acho que você está errado.” Respondi: “Vamos perguntar a Deus. Não quero ser teimoso e ir para lá por minha própria iniciativa; só quero fazer a vontade de Deus.” Foi difícil ter aquele irmão, que tanto me ajudara, pensando que era um erro. Ajoelhamo-nos e colocamos toda a questão nas mãos de Deus. Naquela noite, não consegui dormir, mas parecia que ouvia alguém repetir este versículo sem parar: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança e os confins da terra por tua possessão.” Eu sabia que era a voz de Deus falando comigo. Quando cheguei à China, compreendi por que Ele repetira tantas vezes aquele versículo. Ganhar almas lá é a mesma coisa que aqui, só que mais difícil. O diabo vem e diz: “Por que você não volta para casa? Lá você pode salvar mais almas do que aqui.” Mas eu havia recebido ordens para marchar rumo à China, e Deus teria de me dar ordens igualmente claras para voltar. Deus não só fez com que meu irmão aceitasse a decisão, como também, na noite em que eu estava partindo de casa, tornou minha mãe disposta a deixar que eu fosse para a China.
Meu pai fez com que eu atingisse a maioridade aos vinte e cinco anos. Eu tinha vinte e três quando fui para a China; e, por dois ou três anos, parecia que Deus me mantinha andando de um lado para o outro naquele país. Finalmente, fui enviado a uma estação missionária onde havia ocorrido um motim. Todas as casas dos missionários tinham sido derrubadas, e eles haviam sido expulsos; mas o cônsul britânico ainda estava lá, embora quase tivesse sido morto. Quando um amigo e eu chegamos àquela cidade, pretendíamos manter a posição. Quando o cônsul nos viu, foi como se tivesse visto dois fantasmas. Disse: “Como conseguiram chegar aqui? Há guardas em todos os portões da cidade para impedir a entrada de qualquer diabo estrangeiro.” Dissemos que Deus nos havia trazido e contamos a ele por que tínhamos vindo. Ele disse: “Não; vocês não podem ficar aqui. Posso lhes dar um salvo-conduto para subir ou descer o rio, mas, além de mim, nenhum estrangeiro tem permissão para ficar aqui.” Depois de um tempo, disse: “Se quiserem, podem ficar naquele casebre ali; mas não há espaço para mais de uma pessoa.” Então começamos a discutir sobre quem ficaria. Meu amigo ia se casar e eu não, mas ele queria ficar. Por fim, o cônsul nos convidou para jantar e, durante o jantar, voltou-se para mim e perguntou: “Studd, você ficará comigo?” Isso resolveu a questão. Não sabia por que Deus me havia enviado àquele lugar até algum tempo depois.
Certo dia, enquanto lia a harmonia dos Evangelhos, cheguei à passagem em que Cristo conversou com o jovem rico. Então pareceu que Deus me trouxe de volta todas as promessas que eu havia feito. Alguns dias depois, o correio, que chegava apenas a cada quinze dias, trouxe cartas do advogado e do banqueiro, mostrando o que eu herdaria. Então Deus me tornou simplesmente honesto e me mostrou o que fazer. Foi então que compreendi por que havia sido enviado àquele lugar específico. Eu precisava preparar documentos concedendo uma “procuração” e, para isso, precisava da assinatura de um dos oficiais de Sua Majestade. Fui ao cônsul e, quando ele viu o documento, disse: “Não vou assiná-lo. Você não sabe o que está fazendo.” Por fim, disse que me daria duas semanas para pensar e que depois assinaria, se eu ainda quisesse. Voltei ao fim de duas semanas, ele assinou e os bens foram enviados. Deus prometeu devolver cem vezes mais por tudo o que lhe entregamos. Cem vezes mais é um rendimento extraordinário: dez mil por cento. Deus começou a me devolver cem vezes mais com uma rapidez extraordinária. Pouco depois, fui enviado para Xangai. Meu irmão, que estivera muito doente, havia voltado completamente ao mundo. Por causa de sua saúde, os médicos o enviaram para dar a volta ao mundo em busca de algo melhor. Pensei que ele apenas faria uma escala em Xangai para me ver. Disse que não ficaria muito tempo, pois tinha muito medo de adquirir religião demais. Reservou sua passagem para o Japão para o dia seguinte à sua chegada. Mas Deus logo lhe deu tanta religião quanto ele podia suportar, e ele cancelou a passagem para o Japão e ficou comigo por seis meses. Quando vi aquele irmão se converter de maneira profunda e verdadeira, disse: “Isto é dez mil por cento e mais.”

