REMNANT Revista

Mulher

Quando o caminho de Deus funciona

Edição originalThe Heartbeat of The Remnant · Verão 2020 · Volume 24 · Número 2
A mão de um bebê recém-nascido segurando o dedo de um adulto

Pedimos ao Senhor por ele, nosso terceiro filho, o terceiro menino. Ele chegou com a primavera, a obra-prima da nova vida, lamentando as mudanças ao seu redor. As pessoas comentavam sobre seu choro: achavam-no adorável. Nós também. Nós o amávamos, aconchegávamos e o chamamos de Judson.

Sterling e eu havíamos nos comprometido, antes do nascimento de Judson, a levar nosso grupo de jovens a uma viagem missionária ao México. A data de partida seria cinco semanas depois da chegada de Judson. Como esposa do líder, eu era responsável por levar comida suficiente para alimentar o grupo durante toda a viagem. Fazer listas e comprar os alimentos me absorveu nos preparativos.

Judson fez seus próprios preparativos. Desenvolveu problemas intestinais. Passou sete dias sem sujar a fralda. Perguntei à minha parteira, mas ela não se abalou com aquilo. Quando passaram outros sete dias até a próxima fralda cheia, perguntei ao pediatra. Ela também não se preocupou. Então, partimos para o México: Sterling e eu, nosso bebê de cinco semanas e dois veículos cheios de jovens.

Embora os preparativos tivessem sido cansativos para mim, o tempo no México foi como férias. Minhas únicas obrigações ali eram cuidar do bebê e supervisionar as refeições. Mas Judson não gostou nem um pouco da viagem. Eu o aconchegava por horas, sentada sob uma lona numa encosta impressionante, de frente para o canteiro de obras onde nosso grupo trabalhava. Judson se mostrava inquieto e desconfortável comigo. Chorava se outra pessoa o segurasse. Eu sentia que algo estava errado, mas não havia sinais concretos do quê, exceto que dia após dia se passava sem uma fralda suja.

Na sexta noite no México, deitei Judson no berço. Mas o Senhor me fez voltar, levando-me a tirá-lo dali e colocá-lo na cama ao meu lado. Senti claramente esse impulso e obedeci, embora Judson tivesse dormido no berço nas outras noites. Dormimos. Em algum momento da noite, Judson acordou e não se deixava acalmar. Tentei isto e aquilo, eu mesma meio adormecida. De repente, ele gritou, mas engasgou no meio do grito e ficou mole.

“Sterling!”, exclamei. “Acenda a lanterna! Ele não está respirando!” Sentei-me na cama e examinei meu bebê à luz da lanterna. Seu rostinho se contorcia desesperadamente, mas não saía nenhum sopro nem som. Em segundos, voltou a respirar e gritou de novo. Então engasgou. Como se uma mão invisível apertasse seu frágil pescoço, sua respiração cessou e seus olhos se arregalaram de terror. Passei o dedo pela boca dele, procurando algo preso em suas vias respiratórias, mas não encontrei nada. Tremendo, Judson arfou e chorou. As lágrimas brotaram de seus olhos. “Ah, ore”, implorei. Sterling orou, amontoando súplicas ao céu enquanto nosso bebê parava de respirar outra vez. O episódio se repetiu várias vezes: segundos de gritos aterrorizados, seguidos por segundos de silêncio angustiante. O rosto de Judson ficou coberto de suor. Era agonizante assistir àquilo. Os pensamentos disparavam em minha mente: Nosso bebê vai morrer. Assim mesmo. Sem aviso. Aqui, sem assistência médica. Ó Deus! Ajuda-nos, ajuda-nos, ajuda-nos! Como alguém pode simplesmente ficar olhando o bebê morrer?

“Vou chamar a esposa do missionário”, decidiu Sterling. Eu balbuciava orações enquanto sustentava Judson. Quando a esposa do missionário apareceu, entreguei-lhe o bebê, grata pela presença de uma mulher mais velha do que eu. Oramos juntas, suplicando a Deus que interviesse. Judson começou a chorar e a respirar normalmente enquanto ela o examinava. Ela o devolveu a mim quando ele se acalmou.

“Não sei o que é”, disse ela, depois que lhe contamos o ocorrido. Agradecemos por ter se levantado no meio da noite e voltamos ao nosso quarto. Chorei enquanto Judson dormia tranquilamente em meus braços.

“Sinto que foi uma manifestação demoníaca”, declarou Sterling. “Se o diabo conseguir nos assustar com o que poderia acontecer ao nosso bebê enquanto estamos no meio do nada, poderá nos fazer juntar todo o grupo e ir embora. O diabo sabe que coisas boas estão acontecendo aqui, espiritualmente; esta não é a hora de fugir. Não podemos deixar que ele nos encha de medo.”

Concordei. A maneira incomum como a respiração de Judson parava e recomeçava parecia a ação de uma mão maligna apertando seu pescoço. Não parecia haver outra explicação natural para aquele acontecimento horrível. Sterling pôs a mão sobre Judson e orou, repreendendo especificamente o diabo e buscando a proteção de Deus. Deitamo-nos em paz e segurança e dormimos.

De manhã, Judson parecia não ter sido afetado pelo episódio, embora sua inquietação aumentasse. Passaram-se oito, nove e depois dez dias sem evacuação. Ele chorava, e seu choro suave e adorável agitava meu coração. Enquanto viajávamos de volta aos Estados Unidos, eu me preocupava ao vê-lo afastar-se do peito, contorcendo-se e resmungando até adormecer.

Então começou a regurgitar. Quando finalmente regurgitou um líquido amarelo-vivo, fiquei alarmada. No décimo primeiro dia, fomos consultar uma enfermeira especializada numa colônia menonita no México. Ela examinou Judson, ouviu meu relato e respondeu calmamente: “E este é seu primeiro filho?”

“Não”, respondi, mantendo a calma. “Este é o meu terceiro.” Então ela me olhou nos olhos, em silêncio, e examinou Judson novamente. Deu-lhe um supositório, sugerindo que todos os bebês são diferentes. E são mesmo. Aquele era, sem dúvida, diferente! Com o alívio local proporcionado pelo supositório, Judson pareceu sentir-se melhor.

Ele tinha sete semanas quando chegamos em casa. Das três semanas aos sete meses, teve dificuldades intestinais.

Aos domingos, as pessoas tocavam em seu rostinho, comentando sobre seu chorinho doce. Nos outros dias, eu me encolhia na cadeira de balanço, ouvindo sem ouvir seu chorinho doce. Alguns dias, parecia que ele nunca parava. Eu o segurava, exceto quando tirava uma soneca. Familiarizei-me com seu ciclo: vários dias sem sujar a fralda, durante os quais ficava cada vez mais irritadiço, mamava menos e, por fim, chorava abertamente até que eu lhe desse o alívio temporário de um supositório. Ao contrário do que se suspeitava com frequência, ele não estava constipado. Minha intuição materna dizia que algo dentro dele não acionava naturalmente o funcionamento do intestino.

“Sem cereais”, sugeria um livro. “Pode ser doença de Hirschsprung, que pode ser tratada naturalmente eliminando os cereais da dieta.” Então, deixei de comer cereais. Cinco semanas se arrastaram com minha dieta alterada. Judson parecia não notar meus esforços.

O pediatra ouviu meu relato da rotina dele e pediu um exame para detectar a doença de Hirschsprung.

O resultado do exame foi normal. Retomei, agradecida, o consumo de cereais, mas no domingo seguinte recebi um novo conselho. Uma mãe experiente me procurou no berçário, onde eu me refugiava do salão barulhento de convívio, embalando meu filhinho, embalando, embalando, embalando. “Já pensou em eliminar os laticínios?”

Bem, não, não tinha pensado.

“Acho que você deveria experimentar uma dieta sem laticínios”, concluiu ela. Como um manual médico muito consultado, enumerou os motivos para seguir esse caminho.

O pediatra não aprovava a ideia de eliminar os laticínios. Fui ao consultório dela depois de três semanas seguindo a dieta. “Você precisa das gorduras dos laticínios para manter a produção de leite”, repreendeu-me. “Além disso, o primeiro sinal de intolerância ao leite é sangue nas fezes, não a ausência de fezes.”

Não me importei em interromper a dieta sem laticínios. Tentamos outras coisas. Judson resistia obstinadamente aos enemas. Uma dose prescrita de laxante não deu resultado. Em certa ocasião, o médico me orientou a simplesmente esperar com Judson, convencido de que o intestino dele funcionaria por conta própria. Judson teve mais paciência do que eu. Quando já haviam se passado 17 dias, recorri a supositórios para aliviar meu bebê infeliz.

Mas não era apenas o mistério digestivo que nos causava sofrimento por causa do bebê. Mesmo com o intestino recém-esvaziado, ele era irritadiço. As refeições se tornavam um tormento. Judson protestava quando eu me sentava à mesa para comer com a família. Acostumei-me a prendê-lo ao meu ombro enquanto comia depressa, com uma só mão. Quer dizer, não me acostumei. Nunca me habituei à inquietação dele. Aprendi a fazer as tarefas domésticas enquanto ele dormia, pois, quando estava acordado, era impossível fazer qualquer coisa além de cuidar dele.

Um quarto de hospital vazio, com uma cama e assentos

A igreja também era um ponto difícil. Judson se comportava pior em qualquer lugar movimentado, mas na igreja ficava impossível. Eu lutava com ele até que adormecesse, geralmente a tempo de ouvir a parte final do sermão.

As refeições de convívio eram um desastre. Judson gritava. Não deixava ninguém tocá-lo além de mim e, mesmo assim, eu não conseguia acalmá-lo. Quando finalmente servíamos os pratos e alimentávamos nossa pequena família, eu estava exausta e pronta para ir para casa. Parecia que ele tinha medo de alguma coisa. Não conseguia descobrir do que.

Aos poucos, percebi que ele também parecia ter medo de Sterling. Nessa idade, nossos outros meninos já haviam aprendido a reconhecer Sterling como “mais divertido do que a mamãe”; Judson, não. Afastava-se do pai. Resistia às tentativas de Sterling de se reconciliar com ele e se agarrava a mim com força.

E meu instinto materno, profundamente enraizado sob as ondas de cansaço, reagia. Numa contradição de emoções, mal eu entregava Judson a outra pessoa e sua evidente aflição por mim já tocava meu coração; então eu o pegava de volta, aconchegava-o junto a mim e o acalmava. Parecia que, mesmo enquanto ele me dominava, repreendia e esgotava, sua necessidade intensa me preenchia. Eu não entendia.

“Acho que você deveria dar a ele um probiótico de qualidade”, sugeriu minha sogra. A ideia pareceu boa, pelo menos na noite de domingo. De algum modo, as semanas passaram e não encontrei tempo para procurar um probiótico de qualidade.

“Experimente um bom multivitamínico”, aconselhou outra amiga depois de nos observar durante a reunião de oração. “Pode mesmo ser verme. Conheci uma menininha que era completamente incontrolável; gritava e gritava, e, depois que a trataram para vermes, o problema desapareceu por completo...”

A ideia também pareceu boa. Mas parecia dar muito trabalho. Eu não sabia por onde começar a pesquisar sobre “vermes”, nem tinha espaço mental para isso.

Quando ele tinha cerca de seis meses, passamos pela pior fase: quase uma semana em que chorava sem parar, recusando-se a mamar ou a ser consolado. Pedimos que os irmãos do ministério o ungissem. Depois da unção, aguardamos com expectativa. Em poucas horas, Judson voltou à sua inquietação habitual. Esperamos mais alguns dias antes de informar o pediatra. Seguindo a recomendação dela, Sterling e eu o levamos ao hospital, onde um especialista em gastroenterologia pediátrica poderia nos ajudar. Tínhamos medo de levar nosso bebê vulnerável e tão enigmático ao hospital. “Orem por nós”, pedimos ao contar à família e à irmandade.

Quando fizemos a admissão no hospital, Judson já estava mais animado. A enfermeira nos mostrou um quarto. Deitou Judson na cama fria e cercada do hospital e vestiu nele uma camisola áspera. Enquanto esperávamos a chegada do médico, Sterling e eu nos admirávamos com a mudança em nosso filho. Ele ficava quieto na cama, mexendo nas grades e olhando ao redor. Não por três minutos, nem por 30, mas por uma hora, até finalmente adormecer. Esse comportamento era inédito para Judson. Olhamos um para o outro, sem jeito.

“Estou me sentindo bastante tola”, confessei a Sterling. “O que os médicos vão pensar quando encontrarem esse menininho saudável? E a enorme conta do hospital?” Cobri o rosto com as mãos.

Sterling deu de ombros, tão perplexo quanto eu. “Acho que as pessoas devem ter orado.”

Aquele foi o ponto de virada na saúde física de Judson. O hospital nos liberou no dia seguinte, registrando em seu relatório que Judson estava com boa saúde. Não conseguiram encontrar nada de errado com nosso filho. Pouco depois, o problema intestinal desapareceu. Ele passou a evacuar com a regularidade do nascer do sol — até demais para a mãe que, até então, não precisava de fraldas, lenços umedecidos ou roupas extras. Louvamos o Senhor por responder à oração.

Mas ele ainda chorava. Os meses passaram, e aguardávamos cada nova conquista: talvez quando nascesse aquele dente, talvez quando começasse a engatinhar, talvez quando começasse a andar. Judson engatinhou aos seis meses, andou aos dez, comia — ou, mais precisamente, não comia — comida da mesa e continuava inquieto. Em alguns dias, eu andava com uma pequena “sanguessuga” agarrada à minha saia. Em outros, nem andava. Sterling tentava segurá-lo enquanto eu jantava, mas Judson detestava isso ainda mais do que detestava sentar-se comigo à mesa, e logo eu cedia aos seus choros suplicantes. Quase a única ocasião em que ficava tranquilo era enquanto dormia. O mais intrigante era seu aparente medo de Sterling e seu comportamento irracional na igreja.

“Será que estamos simplesmente mimando-o?”, perguntei a Sterling. “Talvez ele só não queira ficar quieto na igreja, como qualquer outro bebê.”

Sterling refletiu. “Se fosse isso, por que resistiria tanto às refeições de convívio? Deveria ser um momento divertido. Ou, se você o estivesse mimando, por que ele não gostaria de fazer coisas divertidas, como sair comigo ou comer lanches?”

Eu não sabia. Não achava que o estivesse mimando, mas não tinha certeza. Pensava que até um bebê mimado deveria gostar de ficar longe da mãe de vez em quando. Judson, não. Andava comigo o tempo todo, com uma mão agarrada ao decote da minha blusa e a outra empurrando-se para trás para ver para onde íamos. Se não gostasse da direção, muitas vezes tentava me guiar com investidas surpreendentemente fortes. Suas atitudes ansiosas e excessivamente alertas me intrigavam. Talvez houvesse algo mais errado, algo relacionado ao sistema nervoso.

“Sabe, quando acolhemos minha sobrinha, ela tinha dificuldades de vínculo”, contou-me uma irmã durante a refeição de convívio. Judson estava com a boca aberta, virado para o outro lado, por isso conversávamos em meio à algazarra do salão. “Ela nunca havia criado vínculo com ninguém por causa da situação difícil em casa. Comecei a carregá-la comigo aonde quer que fosse, até que criou vínculo comigo. O jeito inseguro de Judson, mesmo quando está com você, me faz pensar que ele ainda não criou vínculo. Talvez seja por isso que entra em pânico sempre que você o põe no chão.” Talvez. Mas onde e quando ele teria desenvolvido dificuldades de vínculo?

“Ele teve um parto traumático?”, perguntou a mulher.

Pensei um pouco. “Bem, não...” Lembrei-me do episódio assustador no México. Talvez tivesse interrompido o processo natural de vínculo. Ou talvez fosse o tempo no hospital. Talvez a coqueluche que teve aos oito meses. Enquanto essas lembranças passavam pela minha mente, percebi que a primeira infância de Judson realmente havia sido difícil. Talvez houvesse uma boa razão para seu equilíbrio emocional estar abalado. Agora ele parecia inseguro. Assustado. Em “modo de sobrevivência” o tempo todo, sendo eu sua duvidosa fonte de segurança momentânea. Se ele tivesse dificuldades de vínculo, eu teria feito tudo errado durante toda a primeira infância dele. Repetidas vezes, tentei deixar que outras pessoas, como as avós, o segurassem, na esperança de que percebesse que estava bem com elas. Não funcionou. A conversa com aquela mulher me fez olhar com dúvida para minhas estratégias, preocupada que eu tivesse prejudicado ainda mais Judson fazendo aquilo. Pelo menos, carregá-lo o tempo todo não custaria nada.

Arranjei um carregador de bebê e passei a carregá-lo comigo enquanto trabalhava. Ele adorava, mas minhas costas, não. Logo abandonei também essa prática, pois não surgiram sinais promissores de criação de vínculo. Se cuidar daquela criança fosse desgastar meu espírito, pelo menos não era preciso desgastar também minhas costas.

Tentamos discipliná-lo. Afinal, estávamos criando outros dois meninos, e a disciplina não era novidade em nossa casa. Não parecia que tivéssemos feito algo diferente com Judson do que fizéramos com os outros meninos, mas os resultados eram certamente diferentes. Judson reagia com terror incontrolável. O chorinho suave da infância já havia desaparecido. Não sabíamos como ensiná-lo a ficar feliz sob os cuidados de Sterling, pois a disciplina só parecia aumentar sua aflição. E como se ensina uma criança a brincar longe da mãe? Depois de algumas sessões exaustivas na igreja, nas quais ele não respondia, começamos a achar que uma palmada não era o meio de chegar até ele. Na verdade, parecia que nunca conseguíamos chegar até ele. Mas, se a palmada não funcionava, como poderíamos ensiná-lo? Eu me lembrava de ver outras mães taparem a boca dos filhos pequenos com a mão para ensiná-los que berrar não lhes daria o que queriam. Talvez ele precisasse aprender a parar de chorar. Tentei fazer isso por algum tempo.

Pouco depois de Judson completar um ano, seu comportamento chegou a um clímax terrível. Ele já tinha tamanho suficiente para resistir a orientações ou tentativas de acalmá-lo. A disciplina parecia deixá-lo enlouquecido. Por fim, peguei um livro sobre desenvolvimento infantil. Uma descrição de uma condição chamada reflexo de medo retido descrevia nosso filho com exatidão. Com exercícios terapêuticos simples, prometia o livro, poderíamos corrigir o problema. No entanto, precisaríamos da ajuda de um especialista nessa área, que nos ensinasse a terapia.

“O que você acha?”, perguntei a Sterling depois de compartilhar com ele as informações do livro.

Seu rosto parecia inseguro. “Não sei”, ponderou em voz alta. “Não foi assim que me ensinaram a criar uma criança. Sempre pensei que amor, oração e disciplina constante fossem as chaves para cuidar normalmente de uma criança. Não temos provas de que haja algo de errado com Judson além da inquietação. Hesito em rotulá-lo.”

Eu também hesitava. Embora ambos reconhecêssemos as necessidades especiais de algumas crianças e o valor de cuidadores com formação especializada, não queríamos atribuir precipitadamente um rótulo que justificasse o comportamento de Judson.

Mas, no dia seguinte, o cansaço de cuidar dele voltou como neblina. Voltamos a conversar sobre o reflexo de medo retido. O amor, com certeza, já havíamos tentado. A oração, ao menos em certa medida. A disciplina constante era outra questão. Ao contrário do que acontecia com nossos outros meninos, ela parecia não funcionar com Judson. De acordo com o texto sobre reflexos de medo retido, a disciplina poderia estar produzindo o efeito contrário ao pretendido.

“Você pode ligar e marcar uma consulta com a terapeuta”, decidiu Sterling. “Vale a pena tentar. Ela também é cristã e não está sugerindo nada além de exercícios físicos para reeducar o cérebro.”

Foi o que fiz. A terapeuta morava a oito horas de distância, algo que não podíamos ignorar. Mas a promessa de ajuda parecia valer a viagem. Enquanto isso, contei a algumas pessoas o que estávamos pensando. Algumas prometeram orar por nós. Minha sogra ofereceu um suplemento infantil para acalmar e melhorar a concentração. Também consegui ir à loja de produtos naturais e comprei um probiótico e um multivitamínico. A data da consulta com a terapeuta se aproximava.

“Não vejo como podemos ir”, disse Sterling alguns dias antes. “Nossas semanas têm sido muito atarefadas e estamos todos cansados. Não consigo ver como encaixar uma viagem de carro de dois dias só para uma consulta rápida. Mas acho que teremos de ir. Se ajudar Judson, valerá a pena.”

Também senti a tensão no pescoço só de pensar na viagem. Naquela semana, fizemos um esforço concentrado para treinar Judson. Lidamos com ele com firmeza, tentando alinhar sua vontade à nossa. Ele detestava isso. Sempre que Sterling o pegava, ele reagia violentamente. Reservei momentos todos os dias para me sentar com ele no sofá, segurando suas mãos e exigindo silêncio, com resultados medianos.

No domingo anterior à data em que deveríamos partir para a consulta, aceitamos um convite para jantar numa casa que não conhecíamos muito bem. Passei o tempo lutando com meu filhinho, engolindo meu orgulho e meu conforto a cada mordida. Enquanto isso, Sterling conversou com os homens sobre nossas dificuldades com Judson, mencionando a ideia de que ele sentia medo e a possibilidade de fazer terapia.

“Já pensou em como Judson deve se sentir quando você o disciplina da maneira que vi sua esposa usar mais cedo?”, perguntou gentilmente um dos homens. “Notei a expressão nos olhos de Judson quando ela o conteve, tapando-lhe a boca. Ele parecia aterrorizado. Se vocês realmente acham que ele tem esse problema de medo, talvez devam tentar ver a disciplina do ponto de vista dele. Um de nossos filhos também reagia de maneira desproporcional aos nossos métodos habituais de educação, até que comecei a explicar-lhe o que eu estava prestes a fazer...” Com discrição, aquele irmão compartilhou uma experiência com o filho deles.

Sterling ficou impressionado e grato por aquela percepção gentil. Os homens compartilharam um pouco mais. Era como se estivéssemos perto demais da situação para enxergá-la plenamente, e o Senhor nos tivesse dado a perspectiva de um observador sábio. Concordamos em cancelar a consulta sobre desenvolvimento infantil e repensar nossos métodos de educação. Decidimos tentar explicar claramente a Judson o que esperávamos dele e quais seriam as consequências da desobediência. Em vez de contê-lo, exigindo que se submetesse à nossa vontade, concordamos em usar pequenas varas repetidas vezes para repreender sua obstinação.

“Vou dedicar esta semana inteiramente às refeições”, decidiu Sterling. “É claro que você vai ficar com a parte mais pesada, já que alimenta Judson em duas das três refeições. Mas vou tentar assumir a maior parte do trabalho. Também vou jejuar e orar por respostas para esse filho. Já tentamos ensiná-lo à mesa, mas nunca persistimos por mais de um ou dois dias. Sempre há ‘alguma coisa acontecendo’ e acabamos relaxando. Mas isto é importante. Importante demais para continuarmos deixando que a ‘vida’ interfira.”

Concordei com ele. Essa decisão fez meu espírito se encher de esperança e alívio. Algo na possibilidade de fazer terapia não parecia certo, mas estávamos desesperados por uma resposta.

Aquela semana foi difícil. Os outros meninos comiam sozinhos enquanto eu passava muito tempo à mesa com Judson. Ele gritava diante da minha expectativa clara de que se sentasse quieto e comesse. Contorcia-se, engasgava, chorava. Eu orava e lhe dava pequenas varadas. Na hora do jantar, Sterling assumia. Judson resistia ainda mais ferozmente. Na primeira noite, foram três horas até nosso filho obedecer e engolir um pouco de comida para o pai. Nas noites seguintes, a situação durou tempos semelhantes. Sterling lidava com Judson com gentileza e firmeza, falando com ele, dando-lhe palmadas e segurando-o. Eu tentava não ouvir. Meu compromisso de apoiar meu marido em tudo isso lutava com minhas emoções, mas dessa vez não cedi quando Judson me olhou com olhos suplicantes.

Ao final da primeira semana, Judson começou a melhorar. Parou de chorar durante as refeições. Sentava-se na cadeirinha e comia obedientemente algumas colheradas para nós. Com uma expressão comicamente desamparada, oferecia a Sterling e a mim uma de suas mãozinhas para segurarmos enquanto comia, como se isso lhe desse coragem. Continuamos a trabalhar intencionalmente apenas nessa área. Ao final da segunda semana, seu comportamento em geral havia melhorado. Começou a soltar-se de mim, buscando diversão por conta própria, caminhando pela casa e balbuciando alegremente. Eu o observava, admirada, enquanto fazia coisas normais de bebê: explorava a caixa de brinquedos, subia nos sofás e mexia nos vasos sanitários. Aventurou-se a sair sozinho e logo aprendeu a brincar com bolas e caminhõezinhos. Parei de lhe dar os vários suplementos, pois ele estava indo tão bem.

Então, num dia feliz, quando os meninos cantaram em coro “O papai chegou!”, Judson soltou um gritinho de alegria. Na noite seguinte, quando Sterling chegou, ele gritou de novo, dessa vez indo feliz até a porta. Abri-a para ele. Caminhou até o caminhão onde Sterling estava. Sterling o carregou para dentro de casa. Nos braços do pai, Judson olhou para mim triunfante e fez um comentário balbuciado sobre o que estava acontecendo. Não fez menção de vir até mim. Então soubemos que Sterling havia conquistado seu coração. Desde então, ele tem sido uma criança diferente.

Agora o observamos com alegria. Seu rostinho é radiante e luminoso, e seus olhos, claros e tranquilos. É evidente que se sente seguro. Tornou-se uma alegria tê-lo por perto, encantando nossa família com suas travessuras de criança pequena. Não só criou vínculo com Sterling, como também ampliou seu círculo de aceitação para incluir outras pessoas. Interage bem com os irmãos. Responde de maneira razoável à educação em outras áreas. Nós o amamos, esse nosso terceiro filhinho.


Então, o que realmente havia de errado com Judson? Acho que ele tinha uma anomalia física nos primeiros meses de vida, que lhe causava desconforto. Sua primeira infância foi difícil. Olhando para trás, vejo que comecei a mimá-lo sem perceber.

Em algum momento da transição entre necessidade e exigência, comecei a satisfazer todos os desejos do meu pequeno. Isso aconteceu de maneira sorrateira e gradual. Desde muito cedo, ele percebeu claramente que o choro me controlava. Eu não percebia. Nós não percebíamos. Só percebemos depois que começamos a retomar o controle dos pais na educação dele. Ainda não sabemos quando aconteceu nem como. Mas isto sabemos: o caminho de Deus funciona.

A oração funciona. A vara da correção funciona. A esposa que apoia o marido quando ele disciplina o filho com amor também funciona. Num plano que desafia a razão humana, para não falar dos ensinamentos do mundo, o processo de moldar firmemente a vontade de Judson o uniu profundamente ao pai. Isso criou segurança em seu pequeno mundo. Sterling está no comando. Judson encontra descanso e segurança nisso. Isso o livrou do peso de controlar seu mundo. Ele está livre para se relacionar com qualquer um de nós, livre das exigências tirânicas de sua pequena natureza egoísta. A clareza de que seu pai é a autoridade em sua vida também parece ter estabelecido minha autoridade sobre ele.

Já se passaram mais de dois anos desde que Sterling começou a voltar o coração e a vontade de Judson para si. Hoje, Judson é um menino alegre e bem ajustado. Fica sentado em silêncio na igreja e nos momentos devocionais; gosta das refeições de convívio e dos amigos; passa com entusiasmo o tempo com o papai ou com a mamãe. Teimosia, ansiedade e refeições são três áreas que exigem empenho diário para educá-lo — mais empenho do que foi necessário com nossos dois filhos anteriores somados! Mas a boa notícia é que Judson responde bem à disciplina. Alguns dias parece que não estamos avançando, até olharmos para trás e vermos o quanto nosso filho realmente progrediu. Louvamos o Senhor por sua intervenção em nossa vida, usando um irmão perspicaz para falar à nossa situação. A Palavra de Deus, o caminho de Deus, contém as chaves para criar uma criança feliz.

  • A mão de um bebê recém-nascido segurando o dedo de um adulto · Unsplash.com
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Referência da revista

Quando o caminho de Deus funciona. Anna L. Martin Poteau, OK. The Heartbeat of The Remnant, Verão 2020 · Volume 24 · Número 2. Páginas de origem 22–27.

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