Introdução
Ser redimido significa ser resgatado. Muitas vezes se fala de redenção em termos de um refém. Quando o refém é libertado, diz-se que foi redimido, quer essa redenção tenha ocorrido mediante o pagamento de um resgate em dinheiro, quer alguém de força superior simplesmente tenha libertado o refém à força.
Neste artigo, não vamos redimir uma pessoa, mas uma doutrina preciosa e uma experiência cristã, das mãos daqueles que as fizeram reféns e as estão forçando a dizer e fazer coisas que nunca deveriam dizer e fazer. Estamos falando do batismo do Espírito Santo e de seu captor, o pentecostalismo. A mera menção do batismo do Espírito Santo deixa algumas pessoas nervosas. Elas viram e ouviram tanta agitação e tantas práticas antibíblicas associadas ao Espírito Santo que ficam automaticamente desconfiadas só de ouvir a expressão “o batismo do Espírito Santo”. Entendemos essa preocupação e também sentimos parte desse nervosismo. Mas, ao mesmo tempo, não devemos reagir rejeitando nem a doutrina nem a experiência do batismo do Espírito Santo. Só precisamos resgatá-la daqueles que a deturparam tão profundamente que mal pode ser reconhecida. Assim como Abraão se levantou à altura da ocasião e resgatou seu sobrinho Ló de Amrafel e seus três comparsas (Gn. 14), que possamos nos levantar e resgatar essa preciosa verdade e experiência daqueles que a fizeram cativa.
Nas edições recentes de The Heartbeat of the Remnant, temos nos concentrado bastante no reino de Deus e na negligência dos ensinamentos sobre o reino no “evangelho” de hoje. O aspecto da salvação referente ao reino foi separado do próprio reino, e criou-se um “evangelho” a partir da morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados. Esse é um falso evangelho, porque negligencia quase por completo os ensinamentos de Jesus sobre o reino de Deus. Do mesmo modo, alguns pegaram os ensinamentos bíblicos sobre o batismo do Espírito Santo e os separaram dos ensinamentos sobre o reino. Em reação, é possível simplesmente rejeitar por completo a doutrina e a experiência do batismo do Espírito Santo. Em vez de reagir, queremos agir e resgatar esse ensinamento e essa experiência tão distorcidos de suas perversões.
Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Neste artigo, usaremos muitas citações do anabatismo primitivo. Os anabatistas falaram mais sobre a obra e o poder do Espírito Santo do que qualquer outro grupo da época da Reforma. Pilgram Marpeck, por exemplo, parece mencionar o Espírito Santo, em média, cerca de uma vez por página em seus escritos. E, ainda assim, ele nem de longe era “pentecostal”. Usamos essas citações não por serem anabatistas e tentarmos imitar os primeiros anabatistas, mas porque refletem uma perspectiva bíblica sobre a obra e a experiência do Espírito Santo entre o povo de Deus.
Em 1527, nos primeiros dias do avivamento anabatista, alguns anabatistas disseram ao conselho de Zurique: “[Os crentes são aqueles] que morreram para a vontade da carne e agora andam na vontade do Espírito, com o fruto do Espírito”. Amém! ~
O problema e a promessa
O problema é bastante simples de definir: o pecado. Quando o homem desobedece a Deus de maneira deliberada e consciente, Deus tem de se afastar. Deus e o pecado não podem coexistir no mesmo lugar.
Então, o que fazemos para remediar nossa situação? Por natureza, todos nascemos corrompidos, isto é, com um egocentrismo contrário à natureza de Deus. Esse egocentrismo nos leva a pecar, a praticar ações contrárias à vontade de Deus. Mas, além dessas ações, há o problema da natureza humana: a própria natureza do homem e a natureza de Deus não podem se misturar. Então, como reunimos o homem e Deus?
Num esforço para fazer o homem reconhecer seu pecado, Deus deu a Moisés um conjunto de leis. Essas leis forneciam um quadro básico — mas incompleto — da maneira correta de viver que Deus havia declarado. Para aqueles que as seguiam, essas leis chegaram até a ser conhecidas como “a justiça de Deus”.
Assim, o homem passou a saber — de forma provisória — o que Deus esperava dele. Foi dado um “aio” para ensiná-los essas coisas. Mas ainda havia um problema. Essas leis continham disposições para o perdão dos pecados, mas não para a restauração da vida de Deus dentro do homem.
Em outras palavras, a Lei mosaica não fornecia cerimônias ou sacrifícios cujo resultado final, depois de realizados, fosse o enchimento do coração humano com o Espírito de Deus. Não havia cerimônia cujo resultado final fosse Deus dizer: “Quando realizarem corretamente esta cerimônia, derramarei novamente o meu Espírito dentro de vocês”. Paulo escreveu aos Gálatas:
É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum; porque, se fosse dada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.
Simplesmente não havia lei, sacrifício ou cerimônia que pudesse encher alguém com o Espírito Santo. Essa era a fraqueza da Lei mosaica, e por isso ela precisava ser substituída por algo melhor.
No Antigo Testamento, apenas os profetas e algumas outras pessoas escolhidas são mencionados como cheios do Espírito. Mas foram dadas promessas de um tempo em que o Espírito de Deus seria derramado sobre todos os crentes. Vejamos brevemente algumas delas, na ordem em que aparecem em nossas Bíblias.
- Envias o teu Espírito, e são criados, e renovas a face da terra. Sl. 104:30 O contexto deste versículo são as criaturas do mar. Mas o ponto em que queremos nos concentrar é que o envio do Espírito de Deus “cria”. O último Adão é chamado de “espírito vivificante”. 1 Co. 15:45 A palavra “vivificante” significa dar ou conceder vida. Este versículo se refere ao fato de que o Messias daria vida por meio de seu Espírito. Naturalmente, ele não faria isso com os peixes do mar, mas com homens mortos em delitos e pecados. “E vos vivificou...” Ef. 2:1
- Quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião e purgar o sangue de Jerusalém do meio dela, com o espírito de juízo e com o espírito de ardor. E o Senhor criará sobre todo o lugar do monte Sião e sobre as suas assembleias uma nuvem de dia e fumaça, e o resplendor de um fogo chamejante de noite; porque sobre toda a glória haverá proteção. Is. 4:4-5 Em Isaías 4 encontramos algumas promessas para o tempo do evangelho. Encontramos purificação e limpeza “com o espírito de juízo... e de ardor”. Depois encontramos a promessa de consolo e orientação. Quando o Messias veio, João Batista profetizou que Jesus batizaria “com o Espírito Santo e com fogo”, e o próprio Jesus também prometeu enviar seu Espírito para guiar e consolar seu povo.
- Até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto, e o deserto se torne em campo fértil, e o campo fértil seja considerado um bosque. Is. 32:15 O contexto deste versículo é um derramamento sobre o povo de Deus que provocaria uma mudança da esterilidade e desolação para uma vida frutífera e abundante... quando “se derrame sobre nós o Espírito lá do alto”.
- E virão ali, e tirarão dela todas as suas coisas detestáveis e todas as suas abominações. E lhes darei um só coração, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne; para que andem nos meus estatutos, e guardem as minhas ordenanças, e as cumpram; e eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. Ez. 11:18-20 O contexto é a restauração do povo de Deus. Encontramos a promessa de purificação, unidade, um espírito novo e um coração novo. Isso teria de ser uma obra sobrenatural de Deus, pois o homem não pode dar a si mesmo um espírito novo. O resultado final dessa transformação do espírito/coração seria que os beneficiários obedeceriam a Deus e se reconciliariam com ele.
- Também vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. E habitareis na terra que dei a vossos pais, e vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus. Ez. 36:26-28 É difícil saber onde parar de citar esta passagem das Escrituras! Promessas tão ricas! Mas, para manter curto o artigo, citaremos apenas estes dois versículos. Vemos novamente a promessa de um coração novo, um coração sensível. Também vemos Deus motivando (fazendo) os beneficiários a obedecer. E, novamente, vemos a reconciliação entre Deus e o homem.
- E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o Senhor, o disse e o fiz, diz o Senhor. Ez. 37:14 O contexto (que não transcreveremos aqui por falta de espaço) é um renascimento ou ressurreição de um conjunto de ossos velhos e secos. A poderosa promessa é: “vivereis”, e a força vivificante (que dá vida) é “o meu Espírito”. Mais uma vez vemos o Espírito de Deus concedendo vida nova.
- E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito. Jl. 2:28-29 Estes versículos são os mais citados em referência ao batismo do Espírito Santo. O ponto importante são as palavras “toda a carne”. Como mencionado antes, antes da vinda do Messias, apenas alguns profetas e outras pessoas escolhidas recebiam o Espírito de Deus. Com a vinda do Messias, a possibilidade de ser batizado com esse Espírito foi aberta a “todos”; até escravos de pouco valor aos olhos do mundo poderiam recebê-lo.
- Então respondeu e me falou, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos. Zc. 4:6 A promessa ligada a este versículo está no contexto de duas oliveiras que (como aprendemos mais tarde em Apocalipse) tinham ligação direta com as lâmpadas. Em outras palavras, as lâmpadas tinham um canal direto das oliveiras, um suprimento inesgotável de azeite diretamente da fonte. Essa seria, por assim dizer, a fonte de energia do castiçal. A “energia” viria de Deus, não das capacidades e esforços do próprio homem.
Essas declarações proféticas nos dão um vislumbre da atuação e do poder do Espírito de Deus. A Lei também falava do Espírito por meio de sombras, mais claramente no “óleo da unção”. Neste estudo, porém, vamos passar por alto esses tipos (por falta de espaço) e avançar diretamente para o tempo da promessa do derramamento.
Espírito Santo e fogo
João não poderia ter sido mais claro. Ele batizava com água, mas Jesus batizaria seus convertidos com algo mais poderoso do que água: o Espírito Santo e fogo. Tenho certeza de que essas palavras deixaram intrigados aqueles que as ouviram. Batizados com fogo?
Aconteceu no dia de Pentecostes. Línguas de fogo físicas pousaram sobre os primeiros beneficiários das promessas mencionadas acima. Mas algo aconteceu para além das chamas físicas. Um fogo de amor divino foi aceso dentro deles, purificando a antiga egocentricidade. A água só pode lavar a sujeira exterior; o fogo purifica os próprios elementos. Lave uma colher de prata com água, e os restos de comida sairão. Atire a mesma colher ao fogo, e as impurezas sairão da prata. Do mesmo modo, quando alguém era batizado com o batismo de João, seus pecados podiam ser perdoados. Mas, se esse mesmo homem fosse batizado com o Espírito Santo, seus pecados seriam queimados para fora de seu coração.
Ao dizer que batizaria com fogo, Jesus usava a imagem da purificação interior que o Espírito de Deus realizaria no homem. Naturalmente, no derramamento inicial, também se viu uma chama física, mas ela era apenas um sinal ou símbolo da chama invisível acesa no espírito do homem. Essas chamas físicas não eram necessárias para realizar a purificação interior e, muito, muito raramente (se é que alguma vez)1 voltaram a ser vistas desde o primeiro derramamento.
Um segundo nascimento
Mas o Messias não chamou a experiência apenas de ser batizado com o Espírito Santo; também falou de ser nascido do Espírito. Quando um importante judeu foi procurá-lo à noite para conhecê-lo melhor, Jesus começou a falar sobre nascer do Espírito. Disse a Nicodemos que, se alguém não nascesse de novo, não poderia entrar em seu reino. Quando Nicodemos demonstrou estar claramente confuso, Jesus explicou que o espírito do homem tinha de nascer do Espírito de Deus. Em outras palavras, era preciso haver uma renovação interior antes de o homem poder entrar no reino. Jesus também explicou que, embora não se possa ver o Espírito, é possível ver os resultados de sua obra... assim como acontece com o sopro do vento. Esse ensinamento não era apenas uma parábola; o novo nascimento era uma experiência real de nascimento espiritual, embora invisível, tão real quanto um nascimento físico.
Em seguida, Jesus passou diretamente a falar de receber a vida eterna. Uma coisa a lembrar aqui é que o nome Jeová não aparece no Novo Testamento. Mas, na verdade, ele está lá... porque Jeová significa “sempre existente”. Quando Jesus falou de dar vida eterna, estava falando de dar o próprio Jeová, o “Eternamente Vivo”. Quem cresse em Jesus receberia de graça essa Vida Sempre Existente.
É aqui que grande parte da teologia moderna fica aquém. Muitas vezes, as pessoas leem Jesus como se dissesse: “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha perdão. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha perdão.”
Não é isso! Jesus veio “para que tenham vida, e a tenham com abundância!” Jo. 10:10 (Observe novamente que não diz perdão.) Embora o perdão seja necessário e esteja incluído no evangelho, precisamos lembrar que ser perdoado e receber a Vida Sempre Existente não são sinônimos: receber a Vida Eternamente Existente vai muito além de um simples perdão. E essa vida é o Espírito de Deus, o próprio Jeová, entrando no coração do homem para habitar ali. A Lei mosaica não previa isso. Sob a Lei, era possível obter perdão, mas não a restauração da vida de Deus no espírito humano. Que diferença! Deus e o homem reconciliados a tal ponto que Deus realmente passa a habitar no espírito do homem e se une novamente a ele!
Isto é aquilo!
Então aconteceu. Jesus lhes dissera que ficassem em Jerusalém até que um poder sobrenatural fosse derramado sobre eles. Esperaram, orando. De repente, aquele “vento” soprou, e as promessas do Pai — que vimos antes neste artigo — se cumpriram. Os corações de pedra foram retirados e, em seu lugar, foram dados corações novos e sensíveis. Um amor sobrenatural foi derramado em seus corações. Havia mansidão e quebrantamento, mas, ao mesmo tempo, grande ousadia. Isto era Vida Eterna! Isto era uma ressurreição espiritual! Era o renascimento do homem interior deles, algo que jamais poderiam ter produzido por suas próprias forças. Isto era a graça de Deus!
E, naturalmente, naquela ocasião também foram concedidos dons especiais, entre eles a capacidade de falar em línguas que nunca haviam conhecido. E não podiam deixar de falar “das grandezas de Deus”. Naquela ocasião, também havia chamas visíveis acima de suas cabeças. Mas esses dons, as chamas visíveis e os sons estrondosos eram, de certo modo, secundários. Algo estava acontecendo ali que nunca acontecera na história da humanidade. Um reino estava sendo formado, um reino em que o Rei governava de dentro, não de fora. A Vida Eterna estava sendo derramada neles; Jeová voltava a se sentar em seu trono no coração do homem.
Provavelmente foi uma cena muito emotiva, mas as emoções também eram secundárias. Muitas coisas diferentes fazem as pessoas se emocionar. As emoções daquele dia eram “irrelevantes”. Mas, aparentemente, os arroubos emocionais e o falar em línguas estrangeiras fizeram a cena parecer uma festa completa, com excesso de uísque e vinho.
Pedro, que poucos dias antes negara veementemente até conhecer Jesus, agora recebera poder para se pôr corajosamente diante de uma multidão e proclamar: “Isto é o que foi profetizado pelo profeta Joel!” Quando a multidão perguntou o que precisava fazer, Pedro lhes disse os passos simples a tomar: arrepender-se de sua desobediência, ser batizados em nome de Jesus (ser “batizado em nome de Jesus Cristo” implicava submeter-se totalmente a ele como Rei da própria vida)... e eles também poderiam experimentar o batismo — o renascimento espiritual — do Espírito Santo.
Os frutos dessa experiência
A partir de Atos 2:41, logo após o fim do sermão de Pedro naquele grande dia, podemos extrair uma lista dos resultados daquele batismo do Espírito: pessoas acrescentadas ao reino de Cristo, perseverança na doutrina pura, comunhão diária, oração, unidade, temor piedoso, curas, altruísmo ao compartilhar bens materiais (libertação do materialismo), alegria, contentamento, ousadia por Cristo...
Paulo, que não participou do derramamento inicial do Espírito, mais tarde apresentou uma lista dos frutos que se veriam na vida de quem o recebesse: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio; contra essas coisas não há lei.” Gl. 5:22-23
O que devemos notar nessa lista é que todos os frutos mencionados dizem respeito a atributos de caráter, algo que acontece no espírito do homem. Antes de prosseguir, deixem-me dizer que é totalmente errôneo afirmar que “só o interior importa”. As pessoas renascidas espiritualmente não são esquizofrênicas espirituais que levam uma vida dupla, em que o interior não corresponde ao exterior. Mas, por outro lado, é possível fazer o que é certo com um espírito ou uma atitude errados. Por exemplo, alguém pode dar todos os seus bens para alimentar os pobres, mas fazê-lo porque realmente quer receber elogios dos homens. Ou porque quer sentir-se bem consigo mesmo. Assim, pode fazer a coisa certa, mas com um espírito errado. Quando o homem nasce de novo do Espírito, começa a fazer o que é certo com a motivação certa.
Banjo para Jesus?
Vejamos, mas muito brevemente, o que acontece hoje em muitos lugares. Um grupo de pessoas se reúne. A música começa, o ritmo acelera, os corpos começam a balançar ao compasso, uma frase repetitiva ressoa (mesmo que seja uma frase muito piedosa) e, em pouco tempo, as emoções fervem intensamente. Alguém cai no chão e começa a rolar para a frente e para trás, para a frente e para trás, gritando alguma coisa. A pessoa que cai no chão pode estar vivendo em adultério, casada com alguém cujo cônjuge de um casamento anterior ainda está vivo. Pode ser membro de um esquadrão de bombardeiros da Força Aérea ou talvez um ator de Hollywood. As joias brilham enquanto rolam. Enquanto rolam para a frente e para trás, gritando, talvez o pastor anuncie: “Olhem, ali estão os banjos de Deus!”2
Depois de algum tempo, as emoções se acalmam. A música para. Todos vão para casa, inclusive os “banjos”, que voltam para continuar vivendo em adultério ou lançando bombas sobre crianças inocentes. O “pastor” — será que ousamos usar esse termo para falsos profetas? — implora a todos que “deem dinheiro ao Senhor”. Diz-lhes que Deus queria que seus filhos vivessem como reis, já que são reis e sacerdotes. É por isso que ele dirige um Cadillac e mora numa casa que vale meio milhão de dólares. Se quiser, ele imporá as mãos sobre você, e você também poderá experimentar ser “batizado com o Espírito Santo” e tornar-se um banjo para Jesus.
Reações aos banjos
Para os discípulos sérios de Jesus, a cena descrita acima é quase repugnante.3 Em reação, podemos facilmente chegar ao ponto de nem sequer querer ouvir falar do batismo do Espírito Santo. Mas, queridos irmãos! Não devemos deixar que os falsos profetas nos roubem uma verdade e uma experiência preciosas. Existe um batismo genuíno do Espírito Santo, um renascimento real do espírito humano, pelo qual Jesus nos disse que temos de passar para entrar em seu reino. E devemos ter em mente que o reino é o objetivo, não a experiência. Nascer de novo pelo Espírito é um meio para alcançar um fim, não um fim em si mesmo.
A experiência genuína
Para conhecer a experiência genuína de nascer de novo do Espírito, vamos agora recorrer a algumas citações dos primeiros anabatistas. Ao usar essas citações, não estamos dizendo que os primeiros anabatistas eram um povo perfeito, que compreendia e experimentava o Espírito de maneira perfeita. Mas vemos que seu ensino e sua prática correspondem estreitamente ao ensino e à experiência bíblicos. Começaremos com Dirk Philips, que trabalhou ao lado de Menno Simons.
Por isso, Cristo também diz que aquele “que crê em mim” tem a vida eterna. Jo. 3:16; 11:25 Por quê? Porque recebeu um poder divino, sim, um poder vivificante de vida eterna — que cria vida em seu coração, penetrando-o, purificando-o e renovando-o tão completamente que, por fim, o conduz, guia e transporta à origem de onde brotou, a saber, à própria vida divina eterna.
Assim, se alguém que crê desse modo em Jesus Cristo recebeu tal poder vivo de Deus e o sente em todo o seu ser, é um verdadeiro cristão crente e confessa Cristo segundo o Espírito, pois é um só espírito com ele. Jo. 3:18; 1 Co. 6:17. Também compreende realmente o que é a carne de Cristo, pois ele próprio é carne da carne de Cristo e osso dos seus ossos. Ef. 5:30 Além disso, no Espírito e na verdadeira fé, comeu a carne de Cristo e bebeu o seu sangue. Jo. 6:54 Por meio disso, uniu-se a Cristo numa natureza comum. Esse conhecimento4 de Deus e de Cristo é a vida eterna. Jo. 17:3
Mas tudo o que alguém diz sobre Jesus Cristo sem esse poder interior de Deus, sem essa iluminação do Espírito Santo e sem essa comunhão e participação na semente divina do caráter e da natureza de Jesus Cristo é conversa inútil, como a fala de uma pessoa cega que (segundo o provérbio popular) discute e debate sobre uma cor que nunca viu nem pode ver. Por isso queremos exortar fielmente todos os que afirmam ser cristãos a aprenderem assim a conhecer Jesus Cristo, crer nele e recebê-lo, para que, no último dia, Jesus Cristo possa confessá-los diante de Deus, seu Pai, e dos anjos eleitos, como seu irmão, irmã e mãe, e recebê-los em seu reino eterno. Mt. 12:505
Menno Simons expressa a mesma ideia com palavras um pouco diferentes:
A regeneração... é uma mudança interior que, pelo poder de Deus e por meio da fé, converte o homem do mal para o bem, da carnalidade para a espiritualidade, da injustiça para a justiça, de Adão para Cristo; e de modo algum pode ocorrer com crianças. Os regenerados vivem pelo poder da vida nova; crucificam a carne com suas concupiscências malignas; despem-se do velho Adão com suas obras; evitam toda aparência do mal; são ensinados, governados e influenciados pelo Espírito Santo. Rm. 1:17.
Eis a verdadeira regeneração com seus frutos, da qual falam as Escrituras, e que vem pela fé na palavra de Deus; sem ela ninguém que tenha atingido a idade da compreensão pode ser salvo, como diz Cristo: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”, Jo. 3:3. Sim, tudo é em vão, mesmo que alguém fosse batizado por Pedro, Paulo ou pelo próprio Cristo, se não fosse batizado do alto com o Espírito Santo e com fogo. Mt. 3:11 Como diz Paulo: “Em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas sim o ser uma nova criatura”, Gl. 5:6; 2 Co. 5:17. Todos os que assim nasceram de Deus, foram transformados e renovados no homem interior e passaram de Adão para Cristo estão prontos para obedecer à palavra do Senhor e dizer com o santo Paulo: “Senhor, que queres que eu faça?” Negam-se a si mesmos com toda a mente e o coração; submetem-se à palavra e às ordenanças do Senhor, sem aversão nem oposição; recebem o batismo segundo o mandamento do Senhor, Mt. 28:19. Tornam-se e se mostram ramos frutíferos de Cristo, a verdadeira Videira, e coerdeiros na igreja do Senhor, Jo. 15:5. Recebem o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo.6
Sobre 1 Pedro 3:21, Menno disse o seguinte:
Aqui Pedro nos ensina como o batismo interior nos salva, lavando o homem interior, e não o batismo exterior, que lava a carne; pois somente esse batismo interior, como já foi dito, tem valor diante de Deus, enquanto o batismo exterior vem apenas como prova da obediência que procede da fé. Se o batismo exterior pudesse salvar sem a purificação interior, todas as Escrituras que falam do novo homem seriam inúteis. O reino dos céus ficaria sujeito à água elementar; o sangue de Cristo teria sido derramado em vão, e ninguém que fosse batizado poderia se perder. Não, não! O batismo exterior de nada vale enquanto não formos renovados interiormente, regenerados e batizados por Deus com o fogo celestial e o Espírito Santo.7
Peter Riedemann, às vezes chamado de “o segundo fundador dos huteritas”, escreveu uma longa explicação de suas crenças enquanto estava preso. Ao tratar da questão de saber se a transformação do homem é obra do homem ou obra de Deus, Peter explicou com estas palavras:
Mesmo que uma pessoa fale com a língua dos anjos (1 Coríntios 13:1), se Deus não falar por meio dela, ela não estará falando a Palavra de Deus (Jeremias 23:21), porque Deus é a Palavra (João 1:1). Mas, quando Deus fala por meio de uma pessoa e deseja construir nela o seu templo, primeiro remove o que é grosseiro e selvagem e não é adequado para sua casa. Ele faz isso por meio da pregação do arrependimento (Lucas 3:1-14; Marcos 1:1-8; Mateus 3:1-12). Quando alguém recebe a Palavra e se arrepende, Deus o coloca sobre o fundamento de Cristo (1 Coríntios 3:11), desde que morra para o pecado e se torne semelhante a Cristo na morte. Então será vivificado pela fé e restaurado a uma vida nova (Romanos 6:1-4), o que acontece não pelo poder humano (Zacarias 4:6; Deuteronômio 8:1-3), mas pela graça e obra de Deus (Efésios 2:1-10). Visto que isso não se realiza pelo esforço humano, mas pela ação de Deus (1 Coríntios: 15:20-28), Paulo nos exorta assim: “Apresentai os vossos membros como instrumentos de Deus e da sua justiça, para que sejam santos” (Romanos: 6:19). Se Deus há de fazer algo de bom numa pessoa, ela precisa se entregar a Deus (Provérbios 1:22-31). Caso contrário, o bem não poderá ser realizado nela. Assim como a pessoa não pode fazer nada de bom por si mesma, Deus também não quer fazer nada nela, a menos que ela se entregue de todo o coração para ser instrumento de Deus. Então a vontade rendida dessa pessoa se entrelaça com a vontade divina de tal modo que a vontade divina e a vontade humana se tornam uma só. Daí em diante, Deus deseja, escolhe e realiza tudo nessa pessoa. Ela permite que Deus faça dela seu instrumento (João 15:4-5) e assim pode dizer com o amado apóstolo Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). É assim que Deus age nas pessoas. Por outro lado, se alguém retém algo, escolhe por si mesmo ou quer ou empreende algo por conta própria, e não com Deus, a obra de Deus é impedida e não pode progredir. Essa pessoa continua despreparada para essa construção e não será adequada para ela. Deus trabalha na pessoa que se entrega, e Deus demonstra seu poder (Deuteronômio 8:1-4) na renovação da pessoa (Tito 3:1-7). Por meio dessa obra, Deus capacita a pessoa a participar da natureza e do caráter de seu Filho (1 Coríntios 2:9-10; 2 Pedro 1:3-8) e até, em parte, de seu poder ilimitado. É isso que lemos nas palavras: “Tudo é possível ao que crê” (Marcos 9:23).8
A prova está no resultado
Então, como sabemos se o espírito que vem sobre nós é realmente o Espírito de Deus? Foi aqui que o pentecostalismo errou desde o primeiro dia. Alguém decidiu que a prova do batismo do Espírito Santo era falar em línguas; se o beneficiário não falasse em línguas, não teria sido batizado com o Espírito Santo. Infelizmente, parecem não ter percebido que a Bíblia é bastante clara: “Pelos seus frutos os conhecereis.” Mt. 7:16 Observe que não diz “pelos seus dons”. Nem “pelas suas emoções”. Nem “pelo seu zelo”.
Nenhuma das três coisas mencionadas é má em si mesma, e todas são desejáveis. No entanto, o pentecostalismo tal como o conhecemos hoje foi construído sobre a falsa premissa de que alguém não foi batizado com o Espírito Santo a menos que fale em línguas como prova.
Há pouca dúvida de que o primeiro derramamento do Espírito mencionado em Atos foi uma experiência emotiva. Provavelmente corriam lágrimas de alegria em abundância. Altos gritos de vitória podem ter ecoado rua acima. Ainda assim, os cristãos não são conhecidos por suas emoções. Assim como o pentecostalismo foi construído sobre uma premissa falsa, outros tentaram dizer que, se você não tiver uma experiência extremamente emotiva, não foi batizado com o Espírito. Nossa constituição emocional é bastante diversa, e precisamos ter extremo cuidado ao tentar fazer outras pessoas reagirem emocionalmente exatamente como nós. Dito isso, parece estranho pensar em ser perdoado, libertado do poder do pecado, cheio de alegria, com o amor derramado em nosso coração... tudo isso sem que surja em nós algum tipo de emoção.
Muito provavelmente, os homens e as mulheres naquele cenáculo eram zelosos (por natureza) por Deus. Mas os dons, as emoções e o zelo são todos secundários. Já vi pessoas que tiveram uma experiência emotiva, mas não receberam o batismo do Espírito Santo. E já vi pessoas extremamente zelosas, zelosas por Deus, que também não receberam o renascimento do Espírito. Isso costuma transparecer na atitude, pois muitos são zelosos pelas verdades bíblicas, praticam as ordenanças corretas e abandonaram os pecados grosseiros da carne, como beber, praguejar e fornicar. Muitos também praticam o vestir modesto, usam coberturas para a cabeça e talvez até tenham adotado as doutrinas da não resistência e da não acumulação de riquezas. Mas os cristãos não são conhecidos por seu zelo religioso.
Os zelotes muitas vezes falham nos pecados do espírito, em suas atitudes. Outros podem tentar conversar com eles sobre o espírito com que agem, mas simplesmente não conseguem enxergá-lo... não têm dentro de si o Espírito de Cristo para “ver o reino de Deus”. Só conseguem ver que se conformaram exteriormente a muitos dos ensinamentos de Jesus — e é maravilhoso que o tenham feito!
Mas o Espírito Santo realiza uma obra de transformação interior que não pode ser imitada nem produzida pela carne. O grande entusiasmo impulsiona os zelotes, que acreditam erroneamente estar sendo movidos pelo Espírito de Deus, quando, na verdade, são movidos apenas por seu zelo religioso. E repito que não há nada de errado em ter grande zelo por Deus. Em poucas palavras, porém, grande zelo e Espírito Santo não são sinônimos. Pilgram Marpeck, um anabatista do sul da Alemanha, explicou assim:
Ah, meus irmãos, com que diligência e cuidado devemos prestar atenção para não considerar nosso próprio impulso como sendo o do Espírito Santo, nem nosso próprio caminho como o caminho e a conduta de Cristo. ...
Tenho observado isso em mim mesmo e também nas narrativas dos escritos bíblicos: a piedade natural odeia o mal e é zelosa pelo bem... que [os zelotes não convertidos] são dominados nisso e impelidos pelo zelo, esforçando-se consideravelmente.
Isso não é, portanto, a compulsão do Espírito Santo de Cristo, nem é por meio dela que se tornam filhos. ... Ainda hoje... muitas pessoas agem por zelo pelo bem, sem saber nem imaginar outra coisa senão que são movidas pelo Espírito Santo. ...
Escrevo tudo isso para que cada um possa ver bem por si mesmo o que o move, de que fonte isso flui, de que fonte procede seu impulso. Os servos não sabem disso. Os amigos ou filhos, porém, sabem o que seu Senhor faz e por que a compulsão do Espírito Santo está neles.9
Participantes da natureza divina
Thomas von Imbroich era um Irmão Suíço dos primeiros tempos do movimento anabatista. Embora tenha sido martirizado pouco antes dos 30 anos, pregou e ajudou a fundar várias congregações ao longo do rio Reno. Enquanto estava preso, escreveu uma exposição de sua fé que foi amplamente utilizada. Sobre a prova do renascimento pelo Espírito Santo, diz o seguinte:
Por estas palavras [Jo. 3:6-8], Cristo indica que a pessoa regenerada se torna espiritual e nasce do Espírito com uma natureza espiritual, como diz Pedro (2 Pe. 1; Rm. 8; Atos 17; Jo. 14): “para que por elas vos torneis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção que, pela concupiscência, há no mundo”. Assim, cada um pode saber se nasceu do Espírito, a saber, se tem as características do Espírito, assim como quem nasce da carne tem as características da carne — cada um em sua esfera (Jo. 3; 1 Co. 15). As aves têm sua natureza peculiar, e também os animais selvagens; o mesmo vale para os seres humanos. Cada pessoa tem a disposição correspondente àquilo de que nasceu. Portanto, a pessoa nascida do Espírito tem inclinação espiritual (Rm. 8), como diz Paulo: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.”10
Os que assim nasceram dessa semente espiritual de Abraão produzirão frutos espirituais, isto é, toda espécie de bondade, justiça e verdade. São obedientes ao Pai; guardam seus mandamentos e seguem seus preceitos (Ef. 5; Jo. 10, 14, 15; Is. 55); abandonam a vida ímpia (Rm. 12) e não se conformam com o mundo; buscam as coisas que são de cima, onde Cristo está, e não as coisas terrenas; mortificam e crucificam sua carne pecaminosa (Cl. 3); seguem os passos de Jesus (seu predecessor) na tristeza, na miséria e na perseguição, e lhe obedecem até a morte (Gl. 3; 1 Pe. 2; Hb. 11). Portanto, dizemos que os que assim são movidos pelo Espírito de Deus são descendentes espirituais de Abraão e filhos de Deus (Rm. 4, 8).
Assim, todas as Escrituras citadas acima testificam que ninguém nasce de Deus se não tiver tal fé e não tiver recebido o Espírito Santo como garantia da nossa herança (Ef. 1).11
Graça!
Provavelmente você já ouviu as definições típicas de graça. Hans Betz, um dos primeiros anabatistas, que escreveu várias canções que formaram o núcleo do Ausbund original,12 definiu a graça em termos simples. Na canção número 88, escreve:
A graça de Deus é o Espírito Santo, também chamado Consolador...
Se o Espírito Santo o guiar, de modo que não ceda ao pecado, Deus o fez nascer de novo, em Jesus Cristo, seu Filho.
Tenho certeza de que Hans não quis dizer que graça e Espírito Santo são sempre sinônimos. Ainda assim, desafio você a ler o Novo Testamento e substituir por “o Espírito Santo” cada ocorrência da palavra “graça”. Por exemplo: “Porque pelo Espírito Santo sois salvos, por meio da fé...” Ef. 2:8 O Espírito Santo nos salva no verdadeiro sentido da salvação, que é resgatar ou salvar do perigo. Ao sermos cheios do Espírito Santo, recebemos poder para vencer o eu, a carne, o mundo e até o próprio diabo. Isso, sim, é graça, um dom verdadeiramente gratuito! At. 2:38; 10:45
“Porque não estais debaixo da lei, mas debaixo do Espírito Santo...” Rm. 6:14 Lembrando que a fraqueza da Lei era não oferecer nenhuma provisão para sermos reunidos a Deus em espírito, podemos compreender como a Nova Aliança é muito superior à Antiga. Agora o crente pode viver sob o poder do Espírito Santo! Sob o Espírito, mas acima da Lei!
Como receber o Espírito
Uma das maiores batalhas da igreja primitiva foi contra os judeus que não entendiam que a Lei mosaica não devia ser imposta aos crentes gentios. Chamados judaizantes, eles achavam que a Lei devia ser observada mesmo depois de ter sido cumprida. Ao combater essa ideia, Paulo fez aos Gálatas uma pergunta provocadora: “Recebestes o batismo do Espírito Santo porque guardastes a Lei com perfeição, ou recebestes o batismo do Espírito Santo porque crestes em Jesus?” Gl. 3:2
Naturalmente, todos sabiam que o dom gratuito do Espírito se devia à fé que tinham em Jesus como o Profeta, Sacerdote e Rei prometido; a Lei não previa o recebimento do enchimento do Espírito. Paulo então seguiu a primeira pergunta com outra semelhante: “Aquele que vos conduziu à experiência de serdes cheios do Espírito fez isso pregando a obediência às leis cerimoniais ou pregando a fé em Jesus?” Mais uma vez, sabiam que era por causa de Jesus, não por guardarem as leis cerimoniais.
Morrer para viver
Hans Betz, o autor de hinos mencionado anteriormente, escreveu o seguinte num de seus hinos:
Compreenda o que acontece: quando ocorre a morte, quando o homem nega sua carne, então recebe de Jesus Cristo o batismo que dá vida. João nos diz que esse mesmo batismo é chamado fogo e espírito; só ele santifica e purifica, e nos torna participantes da comunhão com Deus.
Quem recebe esse batismo é plantado na morte de Cristo; crucificados assim todos os seus desejos, nasce de novo por meio disso. Esse nascimento ocorreu em Jesus Cristo, por meio da água e do espírito.13
O segredo para receber o “batismo que dá vida” do Espírito Santo é morrer; morrer para nossa própria vontade, na fé de que Jesus o guiará pelo caminho certo. Essa “fórmula” — se é que ousamos chamá-la de fórmula — era fundamental em todo o anabatismo primitivo; provavelmente poderíamos preencher esta revista com as citações deles sobre o assunto. Eles usavam a palavra alemã gelassenheit para descrevê-la: “abrir mão” da própria vontade, colocando-a nas mãos de Deus. É morrer para o controle da própria vida; simplesmente nos submetemos em obediência ao que Deus, por meio de Cristo, disse. Se você acredita em alguém, fará o que essa pessoa diz.
Isso também significa renunciar ao materialismo, à fama e à busca dos prazeres de sempre. Jesus, a quem submetemos nossa vontade, disse que, se alguém não “renunciar a tudo quanto tem”, não pode ser seu discípulo.
A escassez em nossos dias
Essa palavra “tudo” é a chave para compreender a escassez do verdadeiro poder do Espírito Santo em nossas igrejas hoje. O materialismo está desenfreado, tão desenfreado que, se alguém sequer sugerir que Jesus realmente queria dizer — quero dizer, realmente queria dizer — uma renúncia à riqueza, pode acabar levando um tapa na orelha... até mesmo em igrejas anabatistas conservadoras. Sugerir que “tudo” significa que os jovens (e também os mais velhos) devem renunciar aos esportes e à busca de prazeres pode fazer com que a pessoa seja rotulada de “legalista”. Sugerir que “tudo” realmente significa “tudo”, que “renunciar” realmente significa “renunciar” e que “não pode” significa “impossível” parece colocar alguém na categoria de “fanático”.
Mas Jesus realmente quis dizer o que disse. É impossível ser seu discípulo sem renunciar a tudo. Podemos adotar uma obediência zelosa a certos ensinamentos bíblicos e, ainda assim, nunca morrer de verdade para o eu. Podemos encontrar a teologia perfeita e expô-la com toda a clareza, mas nunca morrer com Cristo. Podemos ir até os confins da terra, pregando às tribos não alcançadas em lugares remotos, negando a nós mesmos os confortos da vida moderna... e, ainda assim, nunca ter renunciado a tudo. Renunciar a tudo é a cruz que temos de tomar, o custo que precisamos calcular antes de nos tornarmos discípulos.
Leonhard Schiemer era um austríaco convertido ao anabatismo. Viveu apenas nove meses como anabatista antes de ser martirizado, mas conseguiu trazer cerca de outras 200 pessoas nesse curto período. Enquanto estava preso, escreveu vários tratados e uma carta à congregação onde tinha sido ordenado presbítero. Nessa carta, diz o seguinte sobre tomar a cruz:
“Quem quiser ser meu discípulo”, diz Cristo, “siga-me”. Em outro lugar, ele diz: “Sem mim nada podeis fazer”. Pedro diz: “Aquele que padeceu na carne já cessou do pecado”.
A primeira luz foi nosso aio até que veio a outra — Cristo, que é a luz do mundo. Quando seu Espírito entra em mim, já não estou debaixo do aio, mas debaixo da graça. Quando isso acontece, cessam a lei das obras, o pecado, a morte e os membros, e começa a lei do Espírito, da fé, da vida e do coração. Mas esse Espírito não é dado a ninguém, a menos que primeiro se submeta à cruz e à disciplina do Senhor.
Entrar no reino de Deus
Dirk Philips escreveu um longo tratado chamado “O Novo Nascimento e a Nova Criatura”. Ao concluir, disse o seguinte, e o expressou tão bem que usamos essa conclusão para encerrar este artigo:
Concluo dizendo que os filhos de Deus nascidos de novo e as novas criaturas em Cristo Jesus são aqueles que nasceram de novo de Deus, o Pai celestial, por meio de Cristo Jesus, e foram renovados e santificados pelo Espírito Santo; tornaram-se participantes da natureza divina, do ser de Jesus Cristo e do caráter do Espírito Santo.
São aqueles que morreram para o pecado e continuam morrendo cada vez mais diariamente, e experimentam a justiça; aqueles que nunca se vangloriam de si mesmos, mas somente da cruz do Senhor Jesus Cristo, por meio de quem o mundo está crucificado para eles e eles para o mundo; aqueles que, com verdadeira fé, andam segundo a regra de Cristo e seguem seus passos, que não conhecem ninguém segundo a carne; aqueles que não têm apetite pelo que é humano, mas pelo que é divino.
Em resumo, são justos e praticam a justiça, assim como é justo Deus, de quem nasceram; pensam como Cristo Jesus e são movidos pelo Espírito Santo.
Onde isso acontece, ali se vê o reino de Deus, ali se entra no reino dos céus; ali há uma nova criatura em Cristo Jesus. ~
- Há relatos de pessoas que viram coisas semelhantes, mas mantenho uma posição neutra quanto a se isso realmente voltou a acontecer. Nada impede Deus de fazer aparecer novamente chamas físicas quando alguém é batizado com o Espírito, e eu estaria “limitando Deus” se dissesse que ele nunca voltará a fazê-lo. Mas é secundário discutir se Deus já fez aparecer novamente chamas físicas.
- Ouvi essa mesma frase, por incrível que pareça.
- A repugnância é como a ira, uma emoção que não queremos deixar governar nossas atitudes.
- Aqui, conhecimento significa mais do que saber intelectualmente: significa “conhecê-lo pessoalmente”.
- Cornelius J. Dyck, William E. Keeney e Alvin J. Beachy, eds., The Writings of Dirk Philips, (Herald Press, 1992), 149–50.
- Menno Simons, Complete Works of Menno Simon (Pathway Publishers, 1995), 27.
- Ibid., 28.
- Peter Riedemann e John J. Friesen, Peter Riedemann’s Hutterite Confession of Faith (Herald Press, 1999), 178-9.
- William Klassen e Walter Klaassen, eds., The Writings of Pilgram Marpeck, New edition (Wipf & Stock Pub, 2000), 511–2.
- Leonard Gross, Golden Apples in Silver Bowls (Lancaster Mennonite Historical Society, 1999), 77–78.
- Ibid., 98.
- O Ausbund é um hinário anabatista em língua alemã, ainda usado entre os amish da Antiga Ordem.
- Ausbund, Canção 108.


